Opinião

Publicado: Sexta-feira, 6 de julho de 2018

O que esperar da Embraer e Boeing juntas?

Por Professor Guaraci Lima de Morais.

O que esperar da Embraer e Boeing juntas?
"De um modo geral é um alívio entender que teremos a Embraer e toda a sua cadeia produtiva mantida e operando por muito tempo (...)"

A recém anunciada joint venture entre a Embraer e a Boeing representa um passo importante na criação de uma nova e competitiva empresa no segmento aeronáutico mundial, acabando assim com muitas dúvidas e especulações haviam surgido a este respeito.

A seguir relato as principais perguntas que me foram feitas deste o anúncio desta parceria, a fim de melhorar a compreensão sobre a extensão e consequências desta parceria:

Esta joint venture foi um bom negócio para a Embraer? a resposta é simples… Sim, foi um bom negócio!

Como se pode afirmar que esta parceria será vantajosa para a Embraer? É fato que o mercado aeronáutico vem sendo cobiçado por várias organizações, desde as tradicionais até aquelas que ingressaram recentemente, como a Honda, a Mitsubishi, as corporações chinesas. Assim a aliança com a Boeing propicia o beneficio imediato da transferência de tecnologia de ponta, além do aproveitar de toda a logística operacional e comercial que a parceira estadunidense já possui em nível mundial. Além disso passamos a ter acesso a financiamentos internacionais a juros extremamente mais baixos que os nacionais, dentre outros aspectos.

E os benefícios para a Boeing? Esta parceria resolve de forma rápida e de baixo risco (e custo) a necessidade de se desenvolver jatos de porte médio, de aproximadamente 100 lugares, que é uma expertise já conquistada pelos brasileiros.

Em relação a questão da “Soberania Nacional”? Não há perdas, pois de nada adianta deter 100% de algo em declínio. Neste caso é melhor deter 20% de um projeto vencedor, garantindo a manutenção da estrutura local no curto e médio prazo.

E a questão dos empregos no Vale do Paraíba, e de forma especial em São José dos Campos? Considerando que o maior ativo da Embraer não está na sua estrutura física e/ou tecnológica, mas sim na sua capacidade de empreender, ou seja, nos seus recursos humanos, não faz sentido imaginar que a Boeing queira se desfazer deste patrimônio estratégico. Cabe ressaltar que alguns empregos podem migrar para outros países, mas este movimento aconteceria independentemente da joint venture, tendo em vista que com o poder de investimento e convencimento de uma organização do porte da Boeing muitos profissionais migrariam, caso houvessem propostas, como já aconteceu em vários outros episódios.

Os sindicatos pedem que o Governo brasileiro vete a parceria, isto é sensato? Não é sensato, assim como não é racional imaginar que empregos sejam mantidos por decreto, pois o que os mantêm é a eficiência e a competitividade das organizações. Os sindicatos deveriam estar olhando os interesses dos trabalhadores e não os seus próprios, agindo de forma a pressionar o governo para dar mais e melhores condições de trabalho, reduzindo impostos e entreves burocráticos, a fim de criar um melhor ambiente de negócios, e não ficar criando empecilhos aos investimentos produtivos. Vale lembrar que foi esta postura equivocada que propiciou o sucessivo desvio de investimentos da planta da General Motors (GM), em São José dos Campos.

Considerando que houve uma queda no valor das ações da Embraer, e até mesmo da Boeing, pós anuncio da Joint Venture, isto significa que o mercado reagiu mal a esta parceria? De forma alguma, isto representa apenas uma adequação a realidade das condições divulgadas pelas empresas, pois a expectativa gerou uma sobre-valorização do valor das ações, que no caso da Embraer superou os 60% em um ano. Desta forma, ainda que descontadas as quedas, a valorização das ações das companhias ainda foi bastante alta, principalmente quando comparada aos padrões convencionais e a série histórica.

Em termos de Brasil, o que representa esta parceria? Significa que as organizações multinacionais de grande porte continuam a confiar na estrutura produtiva brasileira, a despeito do ciclo de crescimento lento e das incertezas com os rumos da política, por entender que os mercados reagem independentemente das ações de governo. Na prática o Estado tem o potencial de acelerar ou atrasar o desenvolvimento das ações empresariais, mas em geral não chegam a impedir que os movimentos necessários ocorram. Desta forma é benéfica a demonstração de confiança dada pela Boeing.

O que os habitantes do Vale do Paraíba, e especialmente de São José dos Campos, podem esperar desta parceria? Ainda é cedo para sair comemorando, pois os resultados práticos desta parceria não são imediatos, mas o importante neste momento é que os primeiros passos concretos foram dados. É preciso que a população local esteja ciente que apenas a não concretização desta parceria poderia significar dificuldades para a manutenção dos negócios e dos empregos. De um modo geral é um alívio entender que teremos a Embraer e toda a sua cadeia produtiva mantida e operando por muito tempo, e ainda que investimentos sejam redirecionados para outras plantas, no Brasil e no mundo, o Vale do Paraíba permanece como sendo um importante e estratégico centro operacional deste novo sistema.

E as áreas de Defesa e aviação executiva? É preciso destacar que a Embraer não sumiu, muito pelo contrário, outra empresa é que será criada. Na prática as operações devem ser divididas com segmento, onde um vai compor esta anunciada parceria com a Boeing, e as demais permanecem sob o comando da empresa brasileira, nos moldes atuais. É certo que a proximidade com a organização estadunidense abre várias possibilidades de parcerias futuras em outros segmentos, mas isto certamente será pensado em momento oportuno. Até mesmo por este motivo não cabe abrir discussão sobre questões de perda do “soberania nacional”.

Como deve reagir o mercado aeronáutico? Em termos locais deve-se comemorar o uso do potencial instalado, em particular o conjunto fabril (estrutura operacional Embraer e toda cadeia produtiva de suporte e de ensino/pesquisa) e a estrutura aeroportuária nacional (em especial o aeroporto de São José dos Campos), mas em termos globais é um ponto a ser considerado com muito cuidado pelas rivais mundiais, de forma particular a parceria Airbus-Bombardier, que passa a ter um competidor de excelência.

Espero ter contribuído para elucidar algumas das questões que tem repercutido no Brasil e no mundo, sobre esta parceria Embraer-Boeing, ou Boeing-Embraer. Inclusive não cabe preocupação com a primazia no nome desta parceria, mas sim com os aspectos práticos que envolvem a colaboração e o ganho mútuo de competitividade e de mercado.


Professor Guaraci Morais é economista, mestre em ciências ambientais, docente na área de negócios e meio ambiente na FATEC e FAAP; delegado regional do CORECON-SP, escritor e comentarista econômico para emissoras de rádio e TV.

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