Modecon homenageia Centenário de Nelson Werneck Sodré
Entidade do Rio de Janeiro realiza evento no dia 24.
CEB Nelson Sodré
O MODECON (Movimento em Defesa da Economia Nacional) realiza na próxima segunda-feira, dia 24, um evento em homenagem ao Centenário de Nascimento de Nelson Werneck Sodré.
A solenidade terá palestra do professor Lincoln de Abreu Penna, Historiador e Presidente do MODECON e fundador do ISEB - NWS, com participação do escritor Ivan Alves Filho e da antropóloga Luitgart Cavalcanti, a partir das 17h30, no prédio da ABI - Rua Araújo Porto Alegre, 71 - Centro, Rio de Janeiro.
MODECOM
O Modecon, surgido em 1989, foi criado como um braço da sociedade civil da Frente Parlamentar Nacionalista. Em 2008, a entidade ampliou sua atuação, criando em abril o Movimento Nacional em Defesa da Amazônia. A entidade outorgou a Nelson Werneck Sodré o Diploma de Defensor da Soberania Nacional.
Leia abaixo texto de Lincoln de Abreu Penna sobre o homenageado.
Nelson Werneck Sodré, um intérprete de Brasil
Já disse alguém, e disse bem: quem não tem posição política não tem alma.
(Nelson Werneck Sodré)
Conheci NWS quando estudante em duas ocasiões. A primeira ao matricular-me no último curso do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), curso este intitulado de Teoria Social, no qual a parte de História era de responsabilidade dele e de seus auxiliares, todos alunos ainda ou ex-alunos da Faculdade Nacional de Filosofia. Foi um contato mais distante, não obstante a acolhida que proporcionava aos que o procuravam para equacionar dúvidas a respeito de leituras. Depois, foram as visitas que fiz, acompanhado por colegas ou só, ao seu apartamento situado à rua Dona Mariana, número 35. Frente aos seus interlocutores tornava-se mais afável ainda e cioso sempre de avaliações acerca de seus projetos futuros. Após o golpe, ainda tive oportunidade de com ele estar, mas os contatos foram raros.
O que me chamava à atenção nas conversas com o general era a sua dedicação aos estudos. Adotava uma disciplina de leituras e mostrava-se atualizado com os novos lançamentos. Tinha o costume de resenhar as leituras que fazia e, em algumas ocasiões as publicava. Diferentemente de parte de sua geração, não tinha o hábito de participar de reuniões em casas de amigos que geralmente varavam noite. Muitos de seus contemporâneos exibiam erudição e dela faziam render junto aos seus parceiros, amigos e leitores. Com NWS isso não acontecia, talvez pela rígida educação militar ou pelo comprometimento com causas mais sérias, não compatíveis com conversas despretensiosas a deleitar os notívagos. Compenetrou-se de sua tarefa como historiador e assim era respeitado por amigos e não amigos.
O que fez de NWS um historiador de renome e respeito foi a sua compreensão de que as forças armadas integram o corpo social e, portanto, neste corpo atravessam as classes sociais, independentemente da hierarquia e do senso corporativo existe interesses de classe que impelem, por exemplo, segmentos da alta oficialidade a se identificarem com as classes dominantes do país. Em determinado momento, quando o Exército, em particular, ainda representava fundamentalmente os extratos das camadas médias urbanas, a sua identidade maior era com este segmento da sociedade. Assim, a polêmica entre o impulso corporativo e o de natureza sócio-econômico chegou a ser debatido na historiografia, desde o instante em que se discutiu se os tenentes da década de vinte do século XX representavam ou não os interesses das classes médias da época.
O livro O Sentido do Tenentismo de Virgínio Santa Rosa iniciou essa discussão, que foi amparada por Barbosa Lima Sobrinho ao escrever o seu livro A Revolução de Outubro em alusão ao movimento que depôs Washington Luís e impediu a posse do eleito nas urnas , o paulista Júlio Prestes. Esse debate se estenderia posteriormente à universidade, alentado pelas teses acadêmicas sobre o papel dos militares na República, através de estudos acerca da instituição militar e das doutrinas que orientaram em diferentes momentos da vida nacional a Academia Militar até, finalmente, o advento da Escola Superior de Guerra, em 1948. Não parou aí as variadas interpretações sobre função e papel das forças armadas, sempre com maior destaque para o caso do Exército.
Quando o então departamento de História da UFRJ, hoje Instituto de História, organizou o Colóquio “Estado Novo e Autoritarismo - para não esquecer”, em 1987, portanto 50 anos após a instalação daquele regime no Brasil, NWS foi convidado para participar da mesa que discutiu o significado histórico daquele período e que ensinamentos ele nos proporcionaria, estando, naquela ocasião, a viver-se os primeiros e titubeantes momentos de uma transição à democracia política. Ao lado de acadêmicos de renome e de especialistas no tema, sua fala não deixou a desejar. Ao contrário, foi a mais lúcida e contemplou a todos com uma aula de conjuntura política aplicada à situação que proporcionaria o advento do golpe de 1937. A perfeita concatenação dos fatos com o domínio das fontes e uma atualizada compreensão da historiografia produzida sobre o Estado Novo contribuiu para que o evento fosse ainda mais brilhante. Deixou a todos, que não o conhecia, encantados. Pela disciplina no trato com o tempo, a simplicidade em discorrer de eventuais discordâncias com seus interlocutores e o respeito para com os organizadores, portando seu pronunciamento impresso e entregando cópias aos organizadores e membros da mesa.
Nelson Werneck Sodré (NWS) faria este ano de 2011 cem anos. Pouco antes de morrer, aos 89 anos, doou à Fundação Biblioteca Nacional seu precioso acervo documental constituído de uma rica correspondência ativa e passiva trocada com figuras de notória importância no mundo da política nacional, da cultura, das artes, do jornalismo opinativo e do mundo da caserna, em face das muitas amizades construídas ao longo de um tempo marcado por embates, debates, críticas de toda espécie e também de muita camaradagem para com os seus interlocutores. Além disso, as notas que escrevera para seus livros, e não foram poucos, se somaram às inúmeras resenhas, crônicas, críticas literárias, fora as notas que escrevera para uso das direções partidárias. Afinal, foi um dos mais atuantes - embora discreto, quadros políticos do Partido Comunista do Brasil (PCB).
Mas, sobretudo, NWS foi um militar desde 1931, quando ingressa nas fileiras do Exército e de lá até ir para a reserva militar dignificou a força armada a qual serviu, sem que sua opção política e ideológica ferisse nem de leve a postura de disciplina e acato à hierarquia, dogmas da corporação. Mesmo depois, como oficial da reserva, comportou-se como militar a honrar seu passado e o da inst