Esportes

Publicado: Quarta-feira, 16 de junho de 2010

Do contra: brasileiros dão olé no nacionalismo e esquecem a seleção

Fãs brasileiros da Argentina sofrem com todo o patriotismo!

Crédito: Leandro Sarubo Do contra: brasileiros dão olé no nacionalismo e esquecem a seleção
Felipe Rogério da Silva: fã assumido do futebol objetivo da Argentina

Por Leandro Sarubo

Brasil. Ame-o ou Deixe-o.

O slogan ufanista da ditadura militar é uma das melhores definições sobre o comportamento dos brasileiros em relação a todos que "torcem contra" o país. Sobretudo no futebol, não existe espaço para exceções, visões diferentes. Nasceu no Brasil? Então é torcedor da seleção canarinho. E ai de quem pensar o contrário.

O técnico da seleção, o ex-jogador Dunga, é exemplo perfeito da mentalidade nada liberal que domina considerável parte de nossa população. Ele assume sem o menor pudor, por exemplo, que leva em consideração o patriotismo de seus comandados para definir o time.

Em uma entrevista coletiva, o campo de batalha predileto de nosso Fidel Castro com figurino do Elymar Santos, Dunga chegou ao cúmulo de dizer que Doni, fraco goleiro da segunda maior equipe da capital italiana, merecia uma vaga na seleção por ter peitado sua equipe para defender o Brasil em um amistoso contra a Inglaterra. O ato de coragem teria jogado o arqueiro para a reserva do clube italiano, não suas falhas bizarras, vistas apenas pela imprensa, “que luta contra a pátria”.

É sintomático que Dunga se importe apenas com a aplicação na hora do hino nacional. E que fale bobagens. Faz parte da cartilha dos seres humanos recorrer às bobagens quando cometem falhas grandes, como as dele. O que não é muito legal é misturar política e esporte. Se Mandela, em história contada por Clint Eastwood, usou o rugby pra estancar o apartheid, a rixa entre brancos e negros, Dunga usa sua seleção mal escalada para bradar contra a imprensa e todos os traidores da pátria. Dunga x Brasil. 

Um desses traidores que Dunga certamente ofenderia em uma rua de Porto Alegre, enquanto arruma a gola de sua camisa pintada com água sanitária, é o jovem Felipe Rogério da Silva, 22 anos, torcedor inveterado da eterna rival da seleção brasileira: a Argentina.

Torcedor desde 1996, quando “começou a entender de futebol e ver o que era bom”, Felipe foi embalado pelo estilo de Gallardo, Ortega e Cláudio Lopez. Conforme foi crescendo e obtendo mais acesso às informações do futebol internacional, primeiro através da cobertura televisiva, e agora através da internet, Felipe foi sentindo o amor pela seleção vizinha aumentar. O que não causou agressões diretas, mas determinados desconfortos, desde o começo. “As pessoas acham estranho. Chegar a ofender mesmo foram poucas vezes, mas já ocorreu. Quando acontece, falam que sou babaca por torcer para um país que quer o nosso mal”

A razão de tanto amor e carinho em relação ao manto azul e branco mais vencedor da América? A vontade demonstrada pelos jogadores argentinos em campo. Felipe explica que se os jogadores brasileiros possuem uma habilidade individual incontestável, mas que jogadores como Simeone acabavam por encantar muito mais ao lutarem e se doarem até o último apito do juiz.

“O povo no Brasil gosta de ver vãozinho, chapéu. Se o jogo estiver 0 a 0 mas tiver um lance plasticamente interessante, a torcida já vai ao delírio. A escola argentina é de mais marcação, objetividade e raça, coisa que a gente não costuma ver por aqui com freqüência. Às vezes time brasileiro perde e você vê cara rindo”, diz o torcedor do River Plate, que detesta também o único intercâmbio futebolístico entre os reis do Cone Sul: a identificação entre Boca Juniors e Corinthians.

Silva, claro, aposta na vitória hermana nesta Copa, com ou sem confronto direto com o Brasil. Mesmo com as limitações de Maradona, que, na visão dele, merece respeito por ser menos teimoso e acomodado que seus antecessores. “Com Messi, Tevez e uma terceira vaga dividida entre Higuaín e Milito, sempre haverá chance. É o melhor ataque da copa, ainda com Aguero no banco”.

Não tem jeito: Torcer para outras seleções já é tendência

Se você leu esta reportagem  e não gostou da ideia de encontrar brasileiros honrando bandeiras diferentes, tenho uma má notícia: pessoas como Felipe Rogério são, cada vez mais, comuns nas ruas. Pesquisando em lojas de Sorocaba e Itu, descobri que a camisa argentina é, depois do uniforme tradicional da seleção brasileira, a mais vendida. A diferença entre elas, o que é mais interessante, tem só caído nos últimos anos. E mais: o número de consumidores de camisas de equipes estrangeiras tem aumentado como um todo. Além da Argentina, a Itália e a Inglaterra são certeza de movimento para os lojistas. Porque o futebol, enfim, globalizou, apesar do atraso do nosso técnico  Queira nosso técnico Kim Jong Il, ou não.

Comentários