Denise Goulart Rezende: "Tenho nome!"
Camila Bertolazzi
Na condição de comerciante, o que eu não era até 10 anos atrás, me deparo constantemente com algo que me incomoda: a maioria das crianças e adolescentes não sabem, e não se esforçam para saber, o nome das pessoas. São os tios e tias que habitam seu mundo. Podem frequentar por anos um estabelecimento (escola, padaria, farmácia, etc.) ou casa de amigos, e não saberão o nome do comerciante (mesmo que seja sempre a mesma pessoa) ou dos pais dos colegas e amigos. O mundo de adultos que conhecem é formado somente por tios e tias. E muitos crescem, ficam adultos, e continuam com esta prática deselegante, indelicada.
Não sou psicóloga, mas acredito que estes jovens estão perdendo muito com isto. Deixam de perceber que, ao conhecerem as pessoas pelo nome, estarão se deparando com uma personalidade, uma característica, um estilo, um jeito de ser específico daquele ser humano. E que é isto que vai criando um arsenal de possibilidades humanas no seu conhecimento e a reconhecer suas características, as boas e as nem tanto. Imagine ler um livro em que todos os personagens se chamem tio ou tia. Agora imagine explicar o enredo para alguém. Como fará para dar as características dos personagens? Impossível... Muitos jovens já leem tão pouco e ainda estão perdendo contato com os humanos mais próximos.
A meu ver, além desta deficiência que vejo na formação de conhecimento humano, há também uma arrogância embutida neste comportamento: a arrogância da juventude versus maturidade. Todos se lembram do desdém da jovem em relação ao "tio" que ousou puxar conversa com ela no elevador numa propaganda de refrigerante. Queriam me fazer acreditar que estava implícita uma cantada do homem sobre a menina, mas não podemos negar que aparentemente era só uma conversa descomprometida de segundas intenções, mas o "tio" foi colocado em seu devido lugar, bem distante da beleza/charme/poder da juventude. E assim outras propagandas preconceituosas vão incutindo cada vez mais na cabeça dos jovens (e dos adultos, por aceitação desta condição), que eles fazem parte de uma casta elevada e que devem manter distância dos "tios", que, se puxaram conversa, só pode ser com intenção libidinosa. É uma espécie de segregação o resultado disto tudo.
Quem é responsável por isto? Todos os educadores, naturalmente, que são os pais e professores. As crianças, na condição de alunas, não conhecem seus professores. Não existe mais a professora Maria José e sim a TIA, mesmo que elas saibam o nome dela; também os pais, que não orientam seus filhos a se identificarem e a pedirem identificação. Quantas vezes, em meu comércio, vejo um pai pedindo ao filho que pergunte à tia quanto custa tal produto. Não acho que tenham que saber meu nome, mas o que foi feito dos tratamentos você, senhor e senhora?
Pode ser que eu esteja sendo muito implicante, mas é inegável que é bem mais agradável ser tratada pelo nome. Você, que me lê, não acha bom quando encontra um jovem que lhe trata pelo nome? Não é muito melhor ser tratado por Roberto, dona Ivone, seu Antonio, a ser simplesmente um tio sem identidade? Um tio qualquer, igual a qualquer outro tio?
Ao longo destes anos, consegui convencer vários pais e crianças, receptivos aos meus argumentos, da importância do nome. Se você concorda e é um educador, veja como seus educandos estão lidando com os seres humanos. Ensine-os a prestar atenção nas pessoas. Vai ser muito bacaninha qualquer mudança. Para todos.
Denise Goulart Rezende é jornaleira, 50 anos, mineira&carioca, mas moradora de Itu há 10 anos. [email protected].