Relevância das memórias de um escritor
1. IMPORTÂNCIA E SENTIDO DO RESGATE DE MEMÓRIAS LITERÁRIAS
Considerando da maior importância a celebração do centenário de Nelson Werneck Sodré para a história da cultura e do pensamento brasileiros, quis marcar essa ocasião com a publicação de seu livro Memórias de um Escritor, que hoje é presenteado a todos os membros da Academia Brasileira de Letras, tendo em vista que esse livro narra a experiência de participação do autor na geração de escritores que construíram os alicerces de nossa literatura nacional. A relevância que atribuo ao centenário e ao livro de Nelson Werneck Sodré não está relacionada a uma relação pessoal ou familiar com ele, mas ao lugar de relevo dado à preservação da memória para a construção da identidade. Não apenas a transmissão de valores e conhecimentos entre as gerações é crucial para a formação humana e o desenvolvimento de uma nação, mas essa geração literária desempenhou um papel fundamental na consolidação da nossa cultura. Com o objetivo de melhor apreciar o valor da contribuição de Nelson Werneck Sodré para o estudo da memória brasileira e, em particular da memória dessa geração literária, é interessante abordar a contribuição do autor levando em conta sua abordagem da memória, a narração da vida literária da época por ele retratada e o enfoque dele sobre a cultura e a literatura nacionais.
1 - Menciona Lúcia Miguel Pereira – biógrafa de Machado de Assis, Luís Jardim, Orígenes Lessa, Fernando de Azevedo, Francisco Venâncio Filho, Peregrino Júnior, Astrogildo Pereira, Oliveira Viana, Plínio Barreto, Brito Broca, Mario de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, Aníbal Machado, Roberto Macedo e Lourival Fontes.
2 - Como Roberto Simonsen e Alceu de Amoroso Lima.
3 - Como José Lins do Rego, Raquel de Queirós ou Jorge Amado.
4 - Como o ocorrido entre Azevedo Amaral e Samuel Wainer.
5 - Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Sílvio Romero, José Veríssimo, Alberto de Oliveira, Olavo Bilac, Raimundo Correa, Lúcio de Mendonça, Alfredo Taunay.
6 - Nelson Werneck Sodré,“Síntese da história da cultura brasileira”,Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2003, 20º Ed.
7 - Nelson Werneck Sodré,“A farsa do neoliberalismo”, Rio de Janeiro, Graphia,1995.
8 - Nelson Werneck Sodré,A LUTA PELA CULTURA, Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1990.
9 - Em suas aulas, em seus artigos e suas notas de crítica ou em suas conferências, como as que ele pronunciou, no Clube de Engenharia, em 22 de maio de 1957, defendia sempre a cultura nacional e uma literatura para servir ao povo, sem injunções colonialistas.
10 Citava como exemplos dessa nova cultura nacional, publicações como o Canto Claro, de Geir Campos; o romance Fogo Verde, de Permínio Asfora; os ensaios de Antônio Rangel Bandeira; a re-edição do estudo de Eduardo Frieiro, O Brasileiro Não é Triste, publicado pela primeira vez em 1921; o trabalho de Édison Carneiro, A Sabedoria Popular; e a interpretação de Antero do Quental, por Adolfo Casais Monteiro.
11 - Citava exemplos disto, como o fato de a Livraria José Olímpio Editora estar completando, então, 2.000 edições.
A narração das memórias por Nelson Werneck Sodré diferencia-se de um relato interior focalizando o que a consciência solitariamente vivencia, como em certas biografias, confissões ou concepções voltadas para a descrição dos conteúdos da consciência. Seus escritos e pesquisas distinguem-se igualmente de outras análises sociais ou tendências do marxismo que não levam em conta as memórias, as ações humanas e os protagonistas da história. Nelson Werneck Sodré desenvolveu um enfoque histórico e cultural de orientação marxista muito original, que atingiu uma grande complexidade e riqueza pelo seu rigor numa ampla e abrangente descrição dos acontecimentos e pela sua destreza na narração das ações das pessoas, instituições ou grupos sociais. Seu gosto pela literatura e pela história o levou a se esmerar em entrelaçar o nível pessoal das histórias de vida com o nível coletivo das histórias das comunidades, grupos ou sociedades. Assim sendo, sua historiografia escapa tanto das narrações subjetivas como das tendências à descrição externa e apenas objetiva dos fatos históricos, sempre relacionando intimamente à questão da memória e do passado com os acontecimentos presentes, a mudança em curso, a ação em processo e seu desenrolar na história.
Tendo sido um escritor que participou ativamente da história política e cultural brasileira, Nelson Werneck Sodré narra, em suas Memórias de um Escritor, sua história de vida como escritor e várias de suas memórias sobre outros escritores de sua época e as ações que desenvolveram em prol da cultura e da literatura nacionais. Ele aborda os testemunhos do agir dos escritores dessa época, de suas lutas e descobertas humanas relacionando-as a uma realização conjunta da história social brasileira e de suas transformações. Nesse ponto, sua apresentação da história social se distingue das propostas dos pesquisadores que tratam apenas da dimensão pessoal dos acontecimentos ou daqueles que focalizam a história de modo impessoal e no nível da análise macro social. Alguns críticos atribuem indevidamente a Nelson Werneck Sodré esse tipo de uso do marxismo, mas foi justamente com ele que aprendi a não eliminar a dinâmica da ação e do processo histórico, durante os longos anos de nossa convivência. Acompanhando o desenrolar da narração das Memórias de um Escritor, no quadro que ele pinta das grandes transformações sociais dessa época, pode-se observar como o processo social e os seres humanos se transformam no curso dos embates de interesses, dos obstáculos e das experiências, das mudanças dos valores e das direções escolhidas pelos grupos e pessoas.
A narração dessas memórias possibilita a Nelson Werneck Sodré testemunhar suas idéias e aos seus leitores vivenciar e aprofundar suas concepções de mundo. Não apenas ele relata suas ações e relações, mas ele põe em cena outros personagens da história dos escritores brasileiros do período por ele narrado, revelando como essas ações desencadearam um processo próprio que delineou uma mudança no cenário da literatura brasi
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