Pais e Filhos: Intimidade que não se inaugura
Tem coisa que toda mãe e todo pai deveria ouvir antes mesmo de decidir ter filhos. E continuar ouvindo e relembrando a cada dia desta jornada tão transformadora que é a maternidade e a paternidade. Mas não estou falando das milhares de coisas que já existem por aí e que só aumentam a nossa ansiedade, como os manuais para os pais modernos: “faça seu filho dormir sozinho em dez dias”, ou os radicais opostos: “parto natural ou você será uma inconsequente que fez uma cesárea”. Estou falando de palavras que tocam o essencial desta relação que é ao mesmo tempo tão forte e tão frágil, tão complexa e tão simples, tão universal e tão absolutamente única. De palavras que não enquadram e sim libertam e inspiram o melhor ser humano que existe dentro de cada mãe, de cada pai e de cada filho ou filha.
Hoje eu tive o privilégio de ouvir algumas destas palavras, na voz da psicoterapeuta Lúcia Rosenberg, no TEDx Jardins que aconteceu no Museu da Imagem e do Som em São Paulo. Autora do livro “Cordão Mágico, Histórias de Mãe e Filhos”, Lúcia falou sobre a qualidade das relações no espaço íntimo da família. Replico aqui os pontos fundamentais e frases mais marcantes, ainda com a emoção à flor da pele, e antes mesmo de ler o livro (que já está na minha cabeceira, lógico!).
INTIMIDADE, como a base para uma relação mais forte e saudável entre pais e filhos. Algo que “não se inaugura”, começa quando começa esta relação e não quando “o filho está grande o suficiente para entender”. Uma via de mão dupla, presente na “curiosidade com que se faz a pergunta e na atenção com que se ouve a resposta”, assim como na capacidade de nos fazermos conhecer: “quanto mais os seus filhos souberem sobre vocês, mais vocês ampliam a área de identificação que eles têm com vocês (...) falem sobre seus amigos, inimigos, transgressões, lutas, segredos. Isso estreita laços.”
ACEITAÇÃO, como o grande pavimento para a construção de intimidade. “Aceitação acima de tudo (pois) na fantasia, tudo é melhor. A mãe é melhor, o filho é melhor, o mundo é melhor. Mas em uma coisa a realidade ganha da fantasia: a realidade é mais complexa. Mergulhe na complexidade de cada filho.”
EU TE VEJO, como uma premissa amorosa (um insight que autora teve após ver o filme Avatar, onde os personagens falam “eu te vejo” no lugar de “eu te amo”). Uma diferença sutil, mas muito poderosa que considera a mais básica de nossas necessidades: “ser vistos e reconhecidos naquilo que nos faz únicos.” Dando um passo além, Lúcia fala também sobre a capacidade de ver com os olhos dos nossos filhos: “A sabedoria e a generosidade de tomar o olhar do outro emprestado aumenta nossa capacidade de ser justo.”
MEDO, como o maior inimigo do amor. “O medo paralisa gestos, deforma emoções, cala. Não se pode amar aquele que se teme. Mas medo é diferente de respeito. Respeito significa ‘olhar novamente’. Pede tempo e atenção. Você olha, olha, olha e respeita aquilo e aquele a quem a você conhece.”
BRINCADEIRAS, como grades aliadas. “Brincando somos todos mais parecidos. No dia a dia há uma assimetria entre pais e filhos. E as crianças precisam disso para saber que há alguém cuidando delas. Mas na brincadeira, essa simetria se alterna. A brincadeira ensina a ouvir regras, obedecer a regras, transmitir regras. Brincando, podemos ensinar nossos filhos a vencer sem arrogância, e a perder sem humilhação.”
PERSONAGENS, como portais para eternas aventuras. “Não desperdicem nenhuma chance de conversar e interagir com qualquer personagem que seu filho encarnar - pergunte sobre seus amigos, inimigos, poderes, dificuldades. Embarque nesta aventura.”
VIAGENS, como oportunidades únicas de pais e filhos entrarem juntos numa mesma aventura. “Não tem agenda, não tem telefone. É “nóis”. A viagem estreita profundamente laços.”
Sei que teria sido bem mais fácil esperar a gravação da palestra estar disponível e apenas indicar o link. Ou ler o livro todo e trazer ainda mais conteúdo. Mas não pude resistir.... transcrever estas falas é para mim uma forma de continuar ouvindo. Um exercício de olhar com mais atenção para a relação com minha própria filha. Acima de tudo, um exercício de olhar com mais atenção para minhas próprias fragilidades. Porque o medo e a incapacidade de ver e aceitar o outro, por exemplo, são questões que sempre estiverem presentes na minha vida. E acredito, na vida de todos nós, da nossa sociedade, da nossa humanidade.
Mas quando estas questões esbarram naquilo que há de mais importante no mundo (nossos próprios filhos), tudo ganha uma nova perspectiva. Ou você enxerga, muda e melhora, ou você enxerga, muda e melhora! Pelo menos para mim tem sido assim. Quando minha filha nasceu, eu sabia que as coisas não seriam mais as mesmas. Mas eu não imaginava o quanto EU não seria mais a mesma. Eu não imaginava que eu ia enxergar tanto sobre mim, e ter tanta força para querer mudar, melhorar, me transformar. E eu acredito que não existe outro caminho se não este. Pois para criar intimidade e aceitação em relação ao outro, precisamos ter intimidade e aceitação em relação a nós mesmos.
Por isso, se algum livro falou que seu filho tem que dormir assim, comer assado, ou falar sei lá como, não leve tão a sério. Pois antes de existir qualquer manual, existem seres humanos. E o que seres humanos precisam é de outros seres humanos. Que vejam, que compreendam, que aceitem, que acolham, que amem. Uns aos outros. Começando dentro de casa!
“A felicidade se compõe de momentos felizes, de pequenas alegrias que nos ajudam a suportar o intervalo entre eles. Eu acredito que é no ninho criado pela família que as dores, os erros, as duvidas, os medos, os nós mais intrincados devem ser trazidos, porque é ali que nós podemos desmembrar os nós e formar de novo belos e fortes laços.” Lúcia Rosenberg