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Publicado: Terça-feira, 18 de outubro de 2011

Retorno às raízes ituanas

Depois de ter vivido alguns anos fora do Brasil, descobri que as pessoas têm raízes e que estas sustentam nossa identidade. Vivendo no estrangeiro, comecei a compreender a importância da história pessoal e familiar. Tomei consciência do desequilíbrio causado pela falta de raízes no solo de uma comunidade. Após viver durante 14 anos, na França, estabeleci, sem dúvida, uma grande ligação com este país, mas não sentia, pensava ou agia como os que lá teceram sua história ao longo das gerações. Parti, então, em busca de minhas raízes, numa viagem de volta à história de meus antepassados.

Meus avós maternos emigraram da Itália para Itu, onde nasceu minha mãe, num contexto de dificuldades e lutas dos emigrantes italianos para se adaptarem à vida brasileira. O casarão da família Frugoli, na praça do Carmo, onde passei alegres momentos na minha infância e adolescência, é um registro simbólico deste passado que está se apagando com o desaparecimento da geração de minha mãe. Ela é o último elo que liga minha geração familiar à geração anterior dos antepassados italianos. É ela a única que mantém ainda viva a memória de meus tios e avós maternos.

Mesmo se algumas vezes o discurso dos 93 anos de minha mãe se embaralha, ela traz constantemente à tona lembranças vivas de nossa história familiar. E a história da minha família se mistura com a história de Itu e nela mergulha suas raízes. O centro histórico de Itu não é, portanto, para mim apenas um espaço que se atravessa mecanicamente, percorrendo sem ver um conjunto de casas e ruas sem vida. Como minha história familiar está entrelaçada com a história desta cidade, as casas e ruas em torno do casarão do meu avô fazem parte da minha carne e das camadas mais antigas da minha pessoa.

Meus passos pelas ruas e praças desta cidade não são sons aleatórios como os passos de um turista que olha a cidade de fora, sem ter com ela nenhum vínculo, vendo ou fotografando apenas mais um cenário estranho e pitoresco. As minhas passadas seguem o caminho percorrido por meus antepassados, e os meus olhos vêem a cidade através do que eles contaram sobre a casa desta ou daquela família com a qual conviveram.

Minhas conversas, desde o mais simples bom dia a cada pessoa que encontro, se encadeiam no prosear de meus pais e avós. Quando caminho pela Rua Barão de Itaim, que liga a Praça da Matriz onde mora atualmente minha mãe, à Praça do Carmo, onde ela nasceu, é como se eu caminhasse na nossa história. Ao cumprimentar e conversar com os que passam, estou dando prosseguimento à conversa de meus pais, tios e avós com os outros moradores da cidade.

Minha mãe casou-se na Igreja da Matriz, no dia 2 de fevereiro, dia da Padroeira de Itu. Ali, foi celebrado o sacramento que uniu meus pais. Por isso, considero a comunidade espiritual dessa Igreja como a fonte da qual brotou a minha haste. Nossa Senhora da Candelária é a madrinha da união que ascendeu a chama de minha vida. Meu pai levou minha mãe e eu para conhecermos o Brasil e o mundo, mas acabou aqui voltando com ela, que nunca se desligou de Itu. E há dez anos atrás, ele aqui faleceu e foi enterrado. Sua missa de sétimo dia foi realizada, na Igreja da Matriz, e eu participei desta missa comunitária fazendo a leitura escolhida para a liturgia da Palavra.

Há mais de um ano atrás, Deus me deu a graça e a honra de trazer minha mãe para morar de novo em Itu, de volta às suas raízes. Aqui, consegui montar para ela um atendimento domiciliar aconchegante, onde recebe os cuidados necessários para viver uma velhice digna e refazer antigos e novos vínculos. Ao acompanhá-la nesse retorno ao solo natal, eu também estou restabelecendo o contato com a Matriz que nos gerou, participando e inserindo-me nesta comunidade.

No momento, estou passando por uma espécie de renascimento em Itu. Minha pele está ainda muito sensível como a de uma criança que acaba de chegar ao mundo. Sinto-me intimamente ligada a Itu como o recém-nascido ao ventre que o gerou. A falta de cuidado com as calçadas e prédios do centro histórico de Itu é algo que me machuca. Sinto esta falta de cuidado de forma semelhante ao índio que experimenta a destruição de sua floresta como um atentado à própria vida.

Não posso cuidar da cidade toda como cuido de minha mãe, mas resolvi ao menos fazer um gesto de construção e amor, na luta pela preservação do coração de Itu. Estou reformando uma pequena casa antiga do centro histórico, cuidando de cada detalhe da obra como quem restaura um berço antigo para um bebê que acaba de nascer. Não estou apenas erguendo tijolos e pintando muros. Estou preservando e renovando uma história, na esperança que uma nova raiz brote do meu ser e mergulhe no solo ituano.

Este texto constitui um capítulo do livro, Itu pelos Ituanos, preparado pela ACADIL para os 400 anos de Itu e editado pela Ottoni em 2 de fevereiro de 2010, data que marca a celebração de Itu e termina em 2 de fevereiro de 2011, quando se inicia o Ano de NWS criado por decreto pelo Prefeito, no dia do aniversário de casamento de meus pais.

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