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Publicado: Segunda-feira, 24 de abril de 2006

Vó Cremilda não morre, se transforma

Da série “Meus vizinhos”

Lá em Querengué tínhamos uma avó em comum. É por isso que gosto muito do interior do Estado, porque se falta açúcar a gente vai até o vizinho e pede um pouco emprestado, se falta energia, todo mundo senta na varanda e fica contando piadas e causos, o futebol é assistido por todo mundo junto... No caso querengüense, todo mundo chamava Dona Cremilda de vó, era a vó Cremilda.
Eu tinha nem dez anos e adorava visitar a vó Cremilda depois da escola, sempre tinha bolo de fubá ou canjica, que eu adoro.
- Come mais, menino, você está tão magrinho!
Bons tempos aqueles. Me lembro com carinho do dia em que um pipa meu voou para o telhado dela e ela me deixou subir no telhado para pegar o brinquedo. O vento levou o negócio embora, mas só o fato de eu ter subido em um telhado me fez ganhar o dia.
Quando eu estava com onze anos, vó Cremilda ficou doente. Todo mundo ficou preocupado, especialmente as crianças. Três anos antes eu tinha perdido minha avó paterna e não queria perder outra avó, ainda fosse postiça.
- Vem cá, menino, senta aqui com a vó.
Ela chamava todo mundo assim, era menino, menina, pequenino, docinho...
- Quando a vó morrer, você não chore não, viu? A vó Cremilda não morre, se transforma, vira anjo e vai para o Céu.
Se fosse eu dizendo aquilo ou qualquer outro ser humano normal, poderia parecer prepotência. Mas vó Cremilda dizia a verdade. Algumas semanas mais tarde ela se foi, a morte dói. Lembro de um vizinho que disse no velório dela: “O que é a vida senão um prólogo da morte?”.
Esse vizinho vivia dizendo coisas assim, que naquela época eu não entendia, mas hoje vivo escrevendo. Ele tinha pintado no muro “Viver é mais do que respirar” e “Tão logo acordo, me aborreço ao saber que perdi uma noite inteira sonhando de olhos fechados”. Naquele velório, vendo minhas lágrimas, ele tentou me explicar:
- Menino, nós nascemos sabendo que vamos morrer. A vida é uma contagem regressiva.
Quando o tempo da vó Cremilda terminou, doeu bastante em mim. Queria que a vida fosse como nos filmes e novelas, nos quais as pessoas fingem que morreram e dali algumas semanas reaparecem contando que precisaram fingir a morte, armaram tudo porque o a realidade é uma grande teoria da conspiração etc, etc, etc...
Mas não, a verdade é mais dolorida. Aquele mesmo poeta me disse que “o verdadeiro aprendizado vem com a dor” e, “se pararmos para aprender, até a morte ensina”. Não sei se é verdade, provavelmente seja. Mas ainda assim sinto falta da Vó Cremilda.

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