Publicado: Quarta-feira, 8 de junho de 2005
Vender é se relacionar
É incômodo quando vamos a um comércio e somos atendidos sem educação. Concordo que aqueles vendedores que só faltam nos pedir em casamento são complicados também, mas são melhores do que os que nem olham para você.
É por isso que hoje vamos falar...
Sobre como Eduardo não comeu o lanche em Querengué
Pediu um cachorro-quente ao senhor do trailer.
- Qual?
- Cachorro-quente!
- Mas, qual? Completo? Com catupiry? Sem alguma coisa? Num viu a lista aí
do seu lado?
Eduardo estranhou tamanha ausência de educação daquele vendedor.
- Oh, pode ser com catupiry.
Eduardo ficou tentado a sair dali e até a voltar para sua cidade. Mas conteve-se. O mal-educado ali era o dono do comércio e não ele. Ele tinha ido visitar a avó em Querengué e não deixaria que um simples cachorro-quente feito por um grosseiro acabasse com sua alegria.
"Esse lanche terá de ser muito bom para compensar isso", pensou.
Depois de alguns minutos, ele ouviu:
- Tá pronto!
Só poderia ser o seu. Não havia mais ninguém por ali.
Eduardo foi até o trailer, não sabia porque o cachorro-quenteiro não olhava para, estendia o lanche olhando para a rua.
- É para viagem ou vai querer ficar? - como se comer ali fosse um crime.
- Para viagem, por favor.
Eduardo pegou o lanche, aparentemente mais frio que o normal. Entregou R$ 2,00, como dizia na tabela.
- São R$ 2,50!
- Mas aqui na tabela diz que custa R$ 2,00!
- Eu sei. Mas é que subimos o preço hoje e não tive tempo nem saco para fazer outra tabela. Se quiser dar R$ 2,00, tudo bem. Mas o preço certo é R$ 2,50.
Eduardo deu os centavos a mais e caminhou em direção ao carro. Bufava de
raiva daquele homem. Não ia deixar que nada estrag...
- Escuta aqui seu grosso!
O dono do carro de lanches levantou os olhos, sem abrir a boca.
- Quem você pensa que é para tratar os outros assim? Meu lanche está frio, você mal olhou para mim e me tratou como um bicho.
- Você não é daqui, certo?
O visitante balançou a cabeça confirmando. O lancheiro debruçou-se no carrinho, ficando bem perto de Eduardo.
- Então não sabe que sou sempre assim. Com quem visita, com quem mora, com
compra, com quem vende. Não me importa! Se quiser meu lanche, tem que aceitar que sou assim.
Eduardo colocou o lanche no carrinho e disse:
- Meu dinheiro de volta, não quero mais esse lanche frio!
- Não aceitamos devoluções, os ingredientes não podem ser reutilizados.
Eduardo duvidou que um cara daquele nível não reutilizaria a própria mãe depois de morta.
- Então pode ficar com o dinheiro e com o lanche.
Eduardo saiu, mais bravo que antes, porém mais aliviado. Entrou no carro e foi até a casa da avó. Certamente ela teria fritado alguns torresmos ou feito carne de panela.
Quando chegou, viu um senhor saindo alegre da casa da avó. Ele balançava o guarda-chuva, o que fez com que Eduardo se lembrasse do filme "Cantando na Chuva".
Na casa da avó, ele encontrou torresmos sequinhos, do jeito que ele queria.
- Aqui você pode comer até quebrar os dentes, Dudu!
Avós são feitas por encomenda. É triste como a sociedade trata os idosos como inválidos, antiquados ou desnecessários. Eduardo fixou o olhar em sua avó e teve a certeza de que queria envelhecer como ela. Forte, alegre, saudável, prestativa. Isso se confirmou quando ela soltou:
- Estou namorando!
Ele riu.
- Que bom, vó! Se a senhora está feliz. Ele estava radiante quando saiu daqui!
A avó deitou a cabeça curiosa.
- Você viu o Rodinei?! Mas que horas?
Ela esperou a ficha cair.
- Ah! Você viu o Bartolo, ele é o açougueiro da cidade! É que ele veio receber de mim, eu tava devendo no açougue há um tempão. - ela levou a mãe na boca e riu docemente, depois continuou: - o meu Rodinei trabalha no centro da cidade, ele vende cachorro-quente!
Não era possível! ou...
Tudo se confirmou naquele mesmo momento, quando Rodinei abriu bruscamente a
porta da sala.
- Véia, cadê meu torresmo?
Eduardo permaneceu com a boca cheia, sem conseguir mastigar, olhando para o senhor parado à porta, que, por sua vez, sentia o cheiro extinto torresmo, derretendo na boca do neto de sua namorada.
É por isso que hoje vamos falar...
Sobre como Eduardo não comeu o lanche em Querengué
Pediu um cachorro-quente ao senhor do trailer.
- Qual?
- Cachorro-quente!
- Mas, qual? Completo? Com catupiry? Sem alguma coisa? Num viu a lista aí
do seu lado?
Eduardo estranhou tamanha ausência de educação daquele vendedor.
- Oh, pode ser com catupiry.
Eduardo ficou tentado a sair dali e até a voltar para sua cidade. Mas conteve-se. O mal-educado ali era o dono do comércio e não ele. Ele tinha ido visitar a avó em Querengué e não deixaria que um simples cachorro-quente feito por um grosseiro acabasse com sua alegria.
"Esse lanche terá de ser muito bom para compensar isso", pensou.
Depois de alguns minutos, ele ouviu:
- Tá pronto!
Só poderia ser o seu. Não havia mais ninguém por ali.
Eduardo foi até o trailer, não sabia porque o cachorro-quenteiro não olhava para, estendia o lanche olhando para a rua.
- É para viagem ou vai querer ficar? - como se comer ali fosse um crime.
- Para viagem, por favor.
Eduardo pegou o lanche, aparentemente mais frio que o normal. Entregou R$ 2,00, como dizia na tabela.
- São R$ 2,50!
- Mas aqui na tabela diz que custa R$ 2,00!
- Eu sei. Mas é que subimos o preço hoje e não tive tempo nem saco para fazer outra tabela. Se quiser dar R$ 2,00, tudo bem. Mas o preço certo é R$ 2,50.
Eduardo deu os centavos a mais e caminhou em direção ao carro. Bufava de
raiva daquele homem. Não ia deixar que nada estrag...
- Escuta aqui seu grosso!
O dono do carro de lanches levantou os olhos, sem abrir a boca.
- Quem você pensa que é para tratar os outros assim? Meu lanche está frio, você mal olhou para mim e me tratou como um bicho.
- Você não é daqui, certo?
O visitante balançou a cabeça confirmando. O lancheiro debruçou-se no carrinho, ficando bem perto de Eduardo.
- Então não sabe que sou sempre assim. Com quem visita, com quem mora, com
compra, com quem vende. Não me importa! Se quiser meu lanche, tem que aceitar que sou assim.
Eduardo colocou o lanche no carrinho e disse:
- Meu dinheiro de volta, não quero mais esse lanche frio!
- Não aceitamos devoluções, os ingredientes não podem ser reutilizados.
Eduardo duvidou que um cara daquele nível não reutilizaria a própria mãe depois de morta.
- Então pode ficar com o dinheiro e com o lanche.
Eduardo saiu, mais bravo que antes, porém mais aliviado. Entrou no carro e foi até a casa da avó. Certamente ela teria fritado alguns torresmos ou feito carne de panela.
Quando chegou, viu um senhor saindo alegre da casa da avó. Ele balançava o guarda-chuva, o que fez com que Eduardo se lembrasse do filme "Cantando na Chuva".
Na casa da avó, ele encontrou torresmos sequinhos, do jeito que ele queria.
- Aqui você pode comer até quebrar os dentes, Dudu!
Avós são feitas por encomenda. É triste como a sociedade trata os idosos como inválidos, antiquados ou desnecessários. Eduardo fixou o olhar em sua avó e teve a certeza de que queria envelhecer como ela. Forte, alegre, saudável, prestativa. Isso se confirmou quando ela soltou:
- Estou namorando!
Ele riu.
- Que bom, vó! Se a senhora está feliz. Ele estava radiante quando saiu daqui!
A avó deitou a cabeça curiosa.
- Você viu o Rodinei?! Mas que horas?
Ela esperou a ficha cair.
- Ah! Você viu o Bartolo, ele é o açougueiro da cidade! É que ele veio receber de mim, eu tava devendo no açougue há um tempão. - ela levou a mãe na boca e riu docemente, depois continuou: - o meu Rodinei trabalha no centro da cidade, ele vende cachorro-quente!
Não era possível! ou...
Tudo se confirmou naquele mesmo momento, quando Rodinei abriu bruscamente a
porta da sala.
- Véia, cadê meu torresmo?
Eduardo permaneceu com a boca cheia, sem conseguir mastigar, olhando para o senhor parado à porta, que, por sua vez, sentia o cheiro extinto torresmo, derretendo na boca do neto de sua namorada.
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