Vence a união no Reino Unido
Na última sexta-feria, dia 19, pôs-se em prática o tão esperado plebiscito na Escócia, que decidia sobre sua possível independência do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. Com uma votação expressiva, 84.59% dos eleitores registrados comparecendo às urnas - uma afluência histórica em uma nação cujo voto é facultativo - os Unionistas, lutando pela permanência na união, alcançaram grande apoio, de 55,3%, enquanto os Separatistas obtiveram 44,7% dos votos, correspondendo a 1,6 milhão de eleitores. A diferença, em números absolutos, é pequena, 400 mil votos. E dá-nos a dimensão do acirramento do debate entre Unionistas e Separatistas ao longo dos últimos meses.
Tal foi a tensão entre eles - os Separatistas chegaram a estar à frente das pesquisas durante um período - que o Primeiro Ministro britânico, David Cameron, com o apoio do governo de Londres, chegou a propor reformas constitucionais garantindo maior autonomia à nação escocesa, caso optassem pela permanência. A proposta de autonomia é extensível às outras nações. Em coletiva, Cameron afirmou, nesta sexta-feira, após o resultado do plebiscito, que “assim como o povo da Escócia terá mais poder sobre seus assuntos, os povos da Inglaterra, Gales e Irlanda do Norte devem ter um poder maior sobre os seus”. A extensão da proposta sugere um receio de Londres em enfrentar novas aspirações separatistas de outras nações que compõe o Reino Unido.
De todo modo, o resultado comemorado pelos Unionistas é vantajoso para os dois lados. Londres obteve uma vitória por uma margem maior do que as pesquisas indicava. A Escócia ganha uma autonomia maior para sua autogestão. Essa mesma autogestão tem sido uma busca do século XXI: O partido Conservador britânico solicitou um plebiscito para definir a permanência do Reino Unido na União Europeia. Esse plebiscito deve ocorrer após as próximas eleições, se os conservadores fizerem, novamente, maioria no Parlamento. Há também uma tendência de maior participação popular como mostraram os movimentos Ocupy, a Primavera Árabe, os protestos de junho de 2013 no Brasil ou os movimentos separatistas na Europa - estes, que já vinham do, agora, longínquo século XX.
A tendência, num mundo globalizado e com novas ameaças - como o movimento Estado Islâmico - é a diminuição de fronteiras. O conceito de "juntos somos mais fortes" está sendo aplicado na segurança internacional, na economia, na educação, na saúde pública e, em alguns casos, na organização política de muitos países. Menos fornteiras comerciais, turísticas ou culturais. A criação de um novo país iria na contramão dessa tendência. Além disso, a separação da Escócia do Reino Unido traria uma alta conta para a Escócia pagar. O Parlamento Autônomo Escocês (assim como o Galês e o da Irlanda do Norte) é financiado pelo govverno central britânico. As verbas são divididas entre os membros da união. Economicamente, a região é dependente da produção de petróleo no Mar do Norte, que está em declínio. Outras preocupações seriam as estratégias de defesa do território e a moeda a ser utilizada, pois Londres havia indicado não aceitar que a Escócia independente continuasse a usar a Libra.
Outros países observam a consulta pública à população escocesa com preocupaçao: Espanha, Itália e Bélgica têm territórios buscando a independência, e as coisas nestes países tendem a ser menos pacíficas ou democráticas que na Grã-Bretanha. A Catalunha, na Espanha, planeja um plebiscito não-autorizado para ampliar suas pressões por independência, e o Vêneto, na Itália realizou uma consulta pela internet que culminou com um amplo apoio pela separação.