Uma reflexão pessoal sobre o conflito na Palestina
Aconteceu há cem anos. A memória histórica de 2014 traz um símbolo das Relações Internacionais: Em julho do século passado iniciava “a guerra para acabar com todas as guerras”, a Grande Guerra, depois chamada de I Grande Guerra ou I Guerra Mundial. De lá pra cá, centenas de novos conflitos eclodiram, milhões de vidas ceifadas, cidades inteiras destruídas. Aprendemos algo?
28 de julho de 2014. O dia que lembramos como o centenário do início da I Guerra Mundial. O 20o dia de um conflito avassalador no Oriente Médio. O combate mais grave desde 2012, que continua apesar das constantes orientações da ONU, dos números desproporcionais, absurdos.
Segundo o relatório do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (UNOCHA), até o dia 29 de julho, a situação era: 240 mil palestinos desabrigados; 6233 feridos; 1118 palestinos mortos (sendo 72% civis) e 56 israelenses mortos (sendo 5% civis); 133 escolas e 23 instalações de saúde atingidas e 4025 casas destruídas. Piorando a questão, 40% dos mortos palestinos no conflito são crianças. Bombardear uma escola que acolhia refugiados, como o episódio desta última semana de julho, matando 15 civis foge do escopo de uma guerra conforme o conceito internacional do que seria uma guerra, e começa a se aproximar do conceito de limpeza étnica.
A filosofa judia Judith Butler, afirmou em entrevista ao New York Times, que o “genocídio não é uma opção legitima, não é ok decidir que uma população inteira não tem o direito de viver no mundo.” Eliminar civis palestinos, a maioria crianças, é, sim, promover a limpeza étnica. É não permitir que essas crianças se tornem adultas e, portanto, evitar o nascimento de palestinos no futuro. Algo parecido com o que Brasil, Argentina e Uruguai (com apoio da Inglaterra), fizeram com o Paraguai, e – por que não – algo bastante parecido com o que os nazistas fizeram ao próprio povo judeu. Negar que a ofensiva seja desproporcional, considerando 72% de civis entre os mais de mil mortos palestinos e os 5% de civis entre os menos de 100 mortos israelenses, merece, se não uma nova definição de proporcionalidade num conflito, ao menos simbolicamente, um par de óculos para correção de miopia.
Comparar, ainda, a ofensiva israelense com o resultado do jogo entre Brasil e Alemanha na Copa do Mundo de 2014 não só é um desvio de finalidades, como de proporcionalidade: perder de 7 x 1 em uma Copa do Mundo é triste, mas não se compara com o sacrifício de milhares de vidas (as que efetivamente foram perdidas e os muitos feridos; os órfãos ou as pessoas que perderam todos seus familiares, seus empregos, suas casas). Se é para pensar em termos de esporte, com os dados da ONU, de 29 de julho de 2014, o placar é de quase 20 palestinos para cada israelense, muito acima dos 7 gols alemães.
Conflito tem motivações politicas. O posicionamento palestino, apesar do uso da violência, é pró-constituição de um Estado palestino. O posicionamento israelense (como Estado, não como povo, pois há milhares de israelenses pró-constituição de um Estado Palestino) é a destruição do povo palestino. Isso é perceptível ao analisarmos o arsenal tecnológico em poder de Israel: com drones, com um dos melhores serviços secretos do mundo e um dos exércitos mais bem-treinados e bem-equipados do mundo, bastariam poucas horas e poucos disparos para eliminar toda ameaça da estrutura construída pelo Hamas. Mas os ataques continuam. Sangrentos e desproporcionais.
É uma questão política, pois muitos judeus ao redor do mundo se posicionam em favor do cessar-fogo e do inicio de negociações para solucionar o problema. A hastag #freePalestineandIsrael nas redes sociais apresenta diversas mensagens de judeus, palestinos e de pessoas favoráveis à busca de uma solução pacífica.
A questão é difícil de ser resolvida. A relação de todos os moradores da região com o território é complicada. Os muçulmanos que é um território de Santuário para eles, os de origem e criação cristã dizem que a Terra é Santa, enquanto os judeus afirmam que esta é a Terra Prometida a eles. Sem deixar de lado a questão religiosa e avançar para o campo da política e diplomacia, nada poderá ser resolvido. É preciso que haja confiança das duas partes em um mediador, ou ainda, é preciso abandonar a dependência de um mediador externo e alguém dar o primeiro passo. É um processo difícil, pois exige que se desafie a opinião publica interna e anos de conflito, de medo e de violência, mas seria, talvez, um dos poucos caminhos sustentáveis de se solucionar o conflito.
A primeira questão de um porque dar o primeiro passo passa, justamente, pela abordagem religiosa que tanto motiva o conflito: O que justifica um banho de sangue em nome de Deus em pleno século XXI? Quem deu ao Estado de Israel o direito de desdenhar de todas as leis internacionais, de todos os Direitos Humanos e perseguir um título de propriedade que lhe foi outorgado por um Livro? Um Livro – que é Sagrado também para mim – mas um objeto, sobrepondo-se à vidas humanas?
A proposta palestina é clara. Em coletiva de imprensa realizada na Casa do Jornalista de Belo Horizonte, o representante palestino no Brasil, Ibrahim Al Zeben, afirmou que: “Nós temos o nosso objetivo político. Há 40 anos, tentamos criar um Estado democrático laico em todo o território onde convivem palestinos, israelenses, muçulmanos e cristãos, judeus, ateus. Isso não foi possível, então chegamos à conclusão de que temos que criar dois Estados.”
Em lúcida análise, o escritor Eduardo Galeano afirma “E o desespero, à orla da loucura suicida, é a mãe das ameaças que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está a negar, desde há muitos anos, o direito à existência da Palestina. Já pouca Palestina resta. Pouco a pouco, Israel está a apagá-la do mapa.”
Israel controla a água que atende à população palestina e também a energia elétrica. Gaza é uma faixa de 51 km de extensão dentro do Estado de Israel. A Cisjordania, outro território palestino, está do outro lado. Toda comunicação entre elas se dá através do Estado de Israel, controlada fortemente pelo exército. Essa área é cercada por um muro bem maior que o Muro de Berlim, que ficou conhecido como Muro da Vergonha. Sair da terra é impensável, pois este é o lugar em que viveu toda a ascendência de cada uma daquelas famílias, onde está toda a sua históri