Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 18 de abril de 2005

Uma história de amor, de educação...

“EU ESCREVI UM POEMA TRISTE
E BELO, APENAS DE SUA TRISTEZA.
NÃO VEM DE TI ESSA TRISTEZA
MAS DAS MUDANÇAS DO TEMPO,
QUE ORA NOS TRAZ ESPERANÇAS
ORAS NOS DÁ INCERTEZA...
NEM IMPORTAM, AO VELHO TEMPO,
QUE SEJAS FIEL OU INFIEL...
EU FICO, JUNTO À CORRENTEZA,
OLHANDO AS HORAS TÃO BREVES...
E DAS CARTAS QUE ME ESCREVES
FAÇO BARCOS DE PAPEL!” —
Mário Quintana (Eu escrevi um poema triste)

Olho o papel de parede de meu computador e ali está: uma águia.
Ela me desafia. Parece imponente por escolha assumida. Abraçante do céu e da vida: toda senhora do ar, da abóbada que a circunda em um azul de tamanho infindo.
Aí, eu me pego absorta, envolvida por aquilo que há algum tempo me trouxe, talvez, a profissão de professora: a solidão da vocação.
Neste silêncio, doloroso a alma que inquieta vive, dialogo com tantos pensamentos e sensações...

>De um dia em que não fui tudo o que queria ser.
>De imagens que me fizeram (quase) me esquecer do que acredito.
>De lembranças de vida, de sentimentos plenos e de sorrisos e choros de gente pequena...
>De dias tão felizes, em que fui tudo o que queria ser...

Gostaria de entender o sentimento que me invade e não o consigo definir. Ele forma uma mistura caótica tão cheia de coisas! Imagem do desenho feito pelos rabiscos das 36 cores da caixa de lápis-de-cor...
Sim, muito confuso... mas: profundamente colorido.
Difícil explicá-lo, defini-lo...
A vida é assim. E a educação também.
Ao Aldes, costumo dizer que “Não é fácil”. E ele, natureza que completa, ensinou-me a continuar: “Mas é maravilhoso, Ju!”.
É isso.
Gostaria de dizer que a imagem mais fiel de educação, a mim, é a do caos... Um caos bonito, de se ver, fazer, viver... Que assusta, mas convida à aventura do acaso.
Gostaria também de, pelas palavras, conseguir a fiel tradução do infindo sentimento que envolve a lembrança da amizade, do magistério e da infância, já, em minha vida.
Trata-se, este, de um momento realmente doloroso: recorrendo-me à águia como metáfora da condição do que minha alma agora vive, tento (me) explicar e ao que vivo, relendo um texto que meu irmão me enviou:

“... á águia é uma espécie de ave que, após 40 anos de vida, precisa se decidir-se por um processo terrível de renovação - ou, morre.
Suas penas ficam pesadas depois de tanto tempo de vida: ela não consegue voar mais alto, enxergar sua presa e atacar. Suas garras, de tão grandes, encurvam-se para trás, impossibilitando-lhe cortar o alimento e o mesmo acontece com o bico, que cresce demais e não consegue mais triturar os alimentos.
Hora da renovação.
Primeiro, a águia sobe com muito sacrifício a um alto monte , geralmente um penhasco frio , onde aja alimento para supri-la pelo tempo de 5 meses, mais ou menos.
Após instalar-se aí, o que é bem difícil (ela está bem pesada), começa então a bater com suas garras na rocha, para retirá-las. Uma a uma. A águia fica sem dedos, sem garras, anda com muita dificuldade, e com muita dor . Começam a nascer garras novas, e então ela começa a bater com o bico na pedra: precisa retirá-lo! Já sentiu dor de dente, certo?! Imagine todos os dentes ao mesmo tempo, e sem anestesia! Que dor e vontade de viver!
Após cair o bico, outro começa a nascer, e então com garras e bico novos, vem o pior estágio : ela se auto-depena, tira todas as penas, uma a uma. A começar pelas asas, peito, patas, rabo... Dor insuportável. Muito sangue ela perde aí. Muitas morrem neste estágio, pois além de fracas, passam um terrível frio no alto do penhasco.
Mas a força da vida a leva para isso!
Não fica perguntando por que DEUS quis assim. Fica perguntando, isso sim, "que farei depois de acabar tudo isso? Por onde voarei?"
Após o estágio de uns 5 ou 6 meses, renovada, a águia então encara o sol (essa é sua particularidade também, olhar o sol de frente! ) e voa tão alto, tão alto, como nunca havia feito antes, e depois dá um rasante, para então viver mais uns 40 anos! Novinha em folha!
O que me consola é que a águia não sofre a toa : se morre, sinto que morre feliz pois que seguiu seu impulso de vida. Sobrevivendo, vive, reina, fica mais perto do sol , da justiça.
Dói este processo de amadurecimento e decisão: perdemos amigos, vínculos, descobrimos que machucamos pessoas que nos amam, descobrimos os outros... Sentimos o frio que nossa irmãzinha águia sente lá em cima...”

É...
Um frio gigantesco diante do impulso da vida, do desejo ardente da “mais-felicidade”... O Sol é imenso... e assusta!
A tia Ju tem medo. O maior deles é este: o da solidão-de-criança . Só que o problema, não pode ser adiar uma coisa que queremos — como uma máscara que retira minha maior verdade, tão buscada, é preciso que eu a retire e não adiar a revelação.
Me dizem que agora é momento de ir... Uma “pausa” da sala de aula.
É, e eu mesma vou aprendendo a assumir isso. Mas recuso-me à idéia de que: “Eu preciso ir ao mundo... Eu não poderia ficar dentro de uma sala de aula mesmo...” Não há espaço maior no mundo que uma sala de aula. Em meu coração, a minha alma, não, não há.
Ser professora me enche de um orgulho único, diante da alegria pelo viver o desafio de uma profissão a cada dia aberta à sedução: que me provoca, me faz tremer, suar, escalar e continuar na perigosa travessia da conquista.
Entendo este, enfim, como um momento de conhecimento de meus dons e de minha missão.
De repente, tantas vezes, brigando tanto com o que faço, em meus limites e nas contradições próprias da escola, me pegava desiludida, frustrada, angustiada e querendo a minha mãe... Entendia a criança que tinha dor de barriga para ir à escola na 2a feira.
Sinto que perdia-me da consciência sobre mim, enquanto parceira da criançada: separar-me deles, embora não tenha sido algo que tenha escolhido, mas que a vida me impôs, me indica uma oportunidade de subir lá em cima, no céu e sentir saudade, e querer a terra... de seu calor, de seu trabalho, de sua estafa.
Em tudo, foi o amor: agora, refletindo sobre mim, me aproximo da loucura do “amor adolescente” (o mais lindo, o mais inesquecível...). Assim foi minha relação com o Magistério: e

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