Uma ferida na Lei
O casal entrou correndo no pronto-socorro. Cortaram a fila. Nada mais justo.
- Moça, um médico, por favor! Nossa filha cortou a perna e está sangrando muito.
Ele, o pai, trazia nos braços uma garota de cinco anos. A mãe, ao seu lado, acariciava os cabelos da menina, que gemia de dor. - Ela tem RG? — perguntou a atendente.
Os pais olharam atônitos para a atendente.
- Como?!
- RG! Registro Geral. Ela tem?
- Não. Ela precisa que...
- CPF?
- O quê?
- CPF! Eu perguntei se ela possui Cadastro de Pessoa Física?
- Moça, nossa filha está perdendo sangue. Esse pano que amarramos em sua perna não vai...
- Como ela se machucou?
- Caiu da bicicleta.
- O senhor viu? Pode ser testemunha? Talvez tenhamos que fazer Boletim de Ocorrência.
- Moça! Ela é uma criança, caiu da bicicleta e enquanto você faz essas perguntas, ela perde sangue.
- Calma, meu senhor. É a lei, preciso fazer essas perguntas. Ahn... deixa eu ver... Vocês declararam isenção do imposto de renda nesse ano?
- Ora essa! Não vejo como isso pode...
- Vocês moram na cidade?
O pai bufou e respondeu:
- Sim.
- Pode comprovar residência?
- O quê? Moça, nós só queremos um médico!
- É que saiu uma nova lei que impede que atendamos pessoas de outras cidades. A não ser em caso de ausência de serviço de saúde na cidade. Se vocês não puderem comprovar residência, não poderemos atender esse paciente.
A atendente olhou para a fila atrás do casal.
- Próximo!
Um senhor levantou-se do banco escuro do pronto-socorro, foi até a atendente e disse-lhe:
- Senhora, acredito que a situação exija uma medida institucional imediata.
A atendente ficou espantada com as “palavras difíceis” que aquele senhor usou. Ela decidiu que seria melhor deixar a garota passar, mesmo porque aquelas pessoas, segundo a definição da Ditadura Militar, já formavam um grupo de manifestantes. Deixou que a garota entrasse carregada pelo seu pai.
A garota ficou alguns minutos nas mãos do médico. Como toda criança, chorou ao receber sete pontos na perna. Mas o colo paterno novamente a acalmou e a carregou pelos corredores do hospital. Um cristão que visse aquela cena final, diria que era uma filha de Deus carregada pelos braços de seu pai terreno; um humanista diria que era uma vida salva pelo empenho de pessoas doam sua vida; mas, na verdade, ela era uma ferida na lei, uma medida institucional imediata. Uma desobediência àqueles que fazem leis para coisas, para dados ou senhas e não para pessoas que sangram, choram e, muitas vezes, não têm RG ou CPF.