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Publicado: Sexta-feira, 7 de março de 2014

Um pouco de "Entenda a crise da Ucrânia"

Desta vez o texto tem como objetivo fazer uma explicação breve sobre o que está acontecendo na Ucrânia. Como já me disseram: “não é todo dia que se encontra um internacionalista por aí para poder perguntar o que acontece pelo mundo”. Brincadeiras à parte, surgiu, então, a inspiração para escrever um pouco sobre a situação na Ucrânia. 

As relações entre Rússia e Ucrânia e, por que não, a disputa territorial pela Criméia, datam do século XVIII, quando o Império Russo anexou o território às margens do Mar Negro. A Criméia foi russa até 1954, quando Nikita Krushev, líder soviético (ucraniano), transfere a região para a Ucrânia. A própria Ucrânia só se torna independente da URSS em 1991, de modo que é compreensível a forte presença de cidadãos de origem russa – aproximadamente 60% – neste território.

Como não poderia deixar de ser, temos um componente econômico: a Ucrânia é dependente de Moscou por causa do abastecimento de gás no país e tem dívidas com a estatal russa que controla o fornecimento de gás. A Rússia fornece gás para a Europa, e, logisticamente, o abastecimento europeu depende do abastecimento na Ucrânia.

Em 2009, por causa da dívida do governo de Kiev com a estatal russa, o abastecimento de gás da Ucrânia foi cortado, e isso prejudicou o abastecimento de países europeus: os gasodutos saem da Rússia, atravessam a Ucrânia e a  Eslováquia, e vão em direção à Alemanha, Itália e Áustria. Provém da Rússia um terço de todo o consumo de gás da União Europeia. O corte do fornecimento de gás para a Ucrânia, ou mesmo um conflito mais sério entre os dois países, seria sentido em pelo menos quatro países da União Europeia.

E para apimentar a história, temos fatores políticos ligados aos econômicos: a Ucrânia é um país com uma divisão político-ideológica e cultural muito forte, pois a parte leste do país descende de russos e tende a tomar partido da Rússia, enquanto a parte oeste do país busca uma aproximação maior com o mundo ocidental, em especial com a Europa. Os problemas começaram quando a população de origem ucraniana saiu às ruas para pressionar o então presidente, Viktor Yanukovich – cidadão de origem russa, que aprendeu a falar ucraniano depois de adulto –, a optar por um acordo com a UE ao invés da Rússia. O acordo proposto pela Rússia consistia em um vultuoso empréstimo financeiro e a redução de 40% no preço do gás importado.

Tendo aproximado o país com a Rússia em detrimento dos acordos com a UE, Yanukovich enfrentou protestos ainda mais ferozes. Mesmo após assinar uma trégua, o então presidente ucraniano se exilou na Rússia e então assumiu um governo interino, visto pelo ocidente como legitimo e pela Rússia como golpista. Moscou utilizou-se da percepção de golpe de Estado como argumento para justificar sua ocupação militar: os cidadãos de origem russa estariam correndo riscos na Ucrânia.

Já ocorreram alguns focos de violência no conflito, como o ataque a tiros à delegação da União Europeia que vistoriavam a região da Criméia. Um conflito na região pode ser prejudicial não só aos envolvidos, mas também aos países europeus, que dependem do fornecimento de gás russo, e também ao Brasil, que exporta produtos como carne suína para a Ucrânia. Nos próximos dias poderemos observar melhor os acontecimentos, pois há uma proposta de plebiscito para consultar a população da Criméia sobre estar sob a soberania ucraniana ou russa. O primeiro-ministro ucraniano criticou duramente o plebiscito e pediu para que a Rússia não o leve a termo. Ainda é cedo para prever um final.

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