Um dia molhado, o primeiro do ano
Primeiro dia do ano. Domingo. Fico na casa dos meus pais em Cabreúva até o almoço, depois volto para Itu, onde o novo ano me espera. Saio para dar uma volta pela cidade, chinelo de dedo, camiseta velha e shorts amassado. Nem ligo. Quem liga que ligue, nesse dia eu não ligo.
Decido ir à locadora e começar o ano vendo As Invasões Bárbaras. Ótima escolha. Mas a locadora estava fechada, “só vai abrir mais tarde”. Tudo bem. Primeiro dia do ano, não vou reclamar. Quem quiser que reclame, vou voltar mais tarde.
Ando para minha casa, Itu tem me feito bem. Quando estou perto do Centro Histórico o céu se enfurece e a chuva engrossa. Engrossa para o meu lado. Fico meio escondido por uma árvore e aprecio a água lavando a cidade, ainda em ressaca do reveillon. Não consigo evitar e me molho. A camiseta começa a grudar no corpo e mais uma vez resolvo não reclamar. Escolho por dar risada das cócegas.
Aos poucos vou assumindo minha condição de molhado e parto para casa refazendo o filme Cantando Na Chuva. No começo evito as poças, mas bastam alguns passos e estou procurando buracos com água e seguindo contra as enxurradas. Escorrego duas vezes e quase faço xixi de tanto rir. Só quase.
Penso: “vou ficar doente”.
Repenso: “mas vou ficar feliz”.
Descubro as gotas da chuva caindo das árvores por um ângulo ainda inédito para muitos fotógrafos. Fico debaixo das goteiras e espero que a água atinja meu rosto. Que coisa boba. Reflito se já vi isso em filme e acho que não. Me sinto mais feliz por isso.
Desejo que meus amigos estejam comigo. Meus pais. Minha irmã. Os três cachorros lá da fazenda. Tomar chuva é bom, começar o ano molhado é melhor ainda. Mas a hora de ir embora chega quando começo a sentir falta de um banho quente. Vou pra casa.
Quando fecho o portão, Itu continua sendo atacada por milhares, milhões de pequenas gotas que reciclam a vida na estância turística. Eu, reciclado também, entro em casa e olho a rua. Digo, antes do banho: “não havia melhor maneira de começar o ano”.