Um arauto da emancipação nacional
Durante as celebrações do centenário de Nelson Werneck Sodré tem se feito frequentemente referência à cortina de silêncio que procurou encobrir uma obra como a sua de grande vulto e qualidade, que discutiu profundamente o nosso país. Marcos Silva, professor titular de metodologia da história, na USP e coordenador de um dicionário sobre a obra do autor1, numa palestra, em Itu, no Centro de Estudos do Museu Republicano da USP2, contou como esse historiador foi omitido das bibliografias, na época em que cursava essa universidade paulista. Testemunhou ter usado seus textos, sendo elogiado pelo trabalho feito até que o professor descobriu qual era a fonte, e silenciou seus comentários. Em recente homenagem prestada a esse centenário, na ABL, o acadêmico José Murilo de Carvalho, professor titular do Departamento de História da UFRJ, observou o que considera o “interessante fenômeno” do atual retorno à obra de Nelson Werneck Sodré, sobretudo entre os jovens pesquisadores. Desse modo, o feitiço virou contra o feiticeiro, pois a exclusão sistemática do autor de uma obra de tal porte teve o efeito inverso de despertar a curiosidade dos estudantes e daqueles interessados em entender as razões dessa cortina de silêncio.
Embora a leitura dos livros de Nelson Werneck Sodré seja acessível, agradável e aparentemente fácil de entender, a originalidade de seus conceitos marxistas dificulta a avaliação da sua obra. Alguns criticam sua ortodoxia, enquanto outros alegam que ele usa conceitos que não seriam marxistas (como o conceito de povo), ou que não se aplicariam à realidade brasileira (como o de regressão feudal). Não vou, nesta apresentação, entrar nessas questões de metodologia científica, algumas das quais já foram abordadas em outras palestras, em particular em minha apresentação na Comissão Científica do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, em julho de 2011. Considero importantes essas questões científicas e por isso as venho discutindo, porém acho que a contribuição de Nelson Werneck Sodré tem uma dimensão cultural muito mais ampla, que ultrapassa o marxismo, os muros das universidades e os limites das discussões acadêmicas. Na presente apresentação, quero salientar que ele foi não apenas um grande pesquisador da história e da cultura, mas foi igualmente um arauto da emancipação nacional-popular inserida numa proposta alternativa de mundialização diversa da globalização. Para ajudar a entender o significado histórico e social da sua obra e sua atualidade, proponho-me, em primeiro lugar, a por em relevo a estreita relação entre sua produção intelectual e o encadeamento do processo histórico que liga sua época à nossa. Em seguida, ficará mais clara a relação de sua produção, de suas linhas de pesquisa e das etapas de seu processo intelectual com as questões, conflitos e lutas às quais ele busca responder como jornalista, historiador ou escritor, assim como a relação dessas questões e suas respostas com os problemas atuais que estamos vivendo.
1. UMA OBRA EM ESTREITA RELAÇÃO COM A HISTÓRIA BRASILEIRA
Nelson Werneck Sodré nasceu no começo do século vinte (1911), acompanhou diretamente as grandes transformações nacionais e internacionais desse século, e encerrou sua rica existência, em 1999, no término desse século. Tendo sido um dos intelectuais brasileiros mais produtivos e influentes do país, na segunda metade do século XX, num dos momentos mais frutuosos para a elaboração e o debate no espaço público brasileiro, ele realiza uma extensa e profunda análise da história e da realidade social de sua época, enfrentando o debate a respeito das diversas alternativas e projetos para o Brasil. Sua obra é um legado dessa intensa participação e pesquisa da vida intelectual, política e cultural brasileira e de sua luta pela cultura e emancipação do nosso povo, pela soberania nacional, pela justiça social e pela democracia.
A elaboração de sua obra segue o curso do despertar da consciência nacional e da formação de uma cultura nacional a partir da década de trinta, quando o país se industrializa, passa por profundas mudanças, ingressa na sociedade moderna, e aumenta a atividade das diferentes forças sociais na cena política. Sua produção atinge a maturidade ao longo dos anos cinqüenta e sessenta, numa fase de grande efervescência intelectual, no campo da economia, da política e das artes, tendo contribuído para alterar várias idéias desse período, como as de nação, de povo, de valores e ideais sociais ou de formação e transformação da sociedade brasileira. Suas análises e sua produção intelectual foram fundamentais para a elaboração das diretivas intelectuais e políticas dos últimos decênios do segundo milênio, num momento crucial da história brasileira no qual estavam sendo decididos os rumos da nação. Sua obra anuncia as mudanças em curso e as possibilidades que estas poderiam abrir para um futuro mais humano e igualitário para o povo brasileiro, no encaminhamento dos grandes conflitos nacionais e internacionais. Em suas obras, ele discute diversos tipos de projeto para o Brasil, analisando as propostas de alterações da sociedade brasileira, na escuta do forte anseio nacionalista e do desejo de transformações e reformas, que acirram as lutas para incorporar os setores populares a um projeto nacional.
Em meados dos anos sessenta, a onda desse movimento nacional popular colidiu com uma onda mais poderosa que se opunha a esses projetos, no processo de expansão capitalista para abarcar o mundo inteiro: a onda da globalização. Sem negar as grandes conquistas tecnológicas, sociais e culturais que vieram no bojo dessas novas transformações capitalistas, é preciso levar em conta que a vitória dessas transformações trouxe também grandes derrotas para o processo de emancipação social, introduzindo terríveis distorções nas consciências com a consolidação de uma sociedade de massas moldada pela pressão constante a um aumento incessante do consumo. Nelson Werneck Sodré estudou de perto esse processo, em sua última fase de produção, e as alternativas por ele defendidas constituem um antídoto contra essas distorções e continuam mais do que nunca atuais, pois nos fornecem subsídios para avaliar a situação presente, indicando o caminho de um outro tipo de mundialização no respeito dos coloridos nacionais e de suas raízes populares.
As vertentes críticas ao modelo social implantado pela ditadura foram politicamente derrotadas, após uma árdua luta pela emancipação nacional e popular, tendo sido seus principais intérpretes duramente golpeados. &Eac
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