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Publicado: Segunda-feira, 4 de junho de 2012

Tu te tornas responsável pelo que crias

Ao fazer uma determinada atividade, geramos um resultado, que costuma ser denominado de “produto do trabalho”. Uma questão importante é perguntar-se, periodicamente: qual o produto de nosso trabalho realizado e o que ele acrescenta ao mundo?

No mundo capitalista, muitos profissionais somente geram resultado para o lucro dos sócios, esquecendo-se de que o resultado de seu trabalho vai muito além da contribuição individual e coletiva para os produtos e serviços. Parece complicado, mas não é, como veremos nos exemplos verídicos a seguir, que não serão identificados por uma questão de ética em relação aos envolvidos.

Um aluno aprende uma  atividade com o professor, em uma determinada escola; por exemplo, em um curso adquire os conhecimentos sobre calcular custos e como negociar com o fornecedor um desconto pela compra de uma quantidade maior. Esse é um conhecimento importante, mas não é suficiente sozinho, é preciso aplicar a capacidade de análise a um contexto maior. Esse aluno, buscando um melhor resultado para a empresa na qual trabalha, negociou uma compra de matéria-prima com 25% de desconto, o que, do ponto de vista comercial, foi um excelente negócio. O problema é que essa compra era suficiente para a produção da empresa em um ano, gerando um problema de fluxo de caixa tão sério que foi necessário demitir um terço dos funcionários da empresa para conseguir sobreviver. Quem foi o responsável pelas demissões?

Outro caso é o um engenheiro que depois de faltar a várias aulas importantes, apresentou atestados médicos falsos, foi aprovado no curso após uma prova com consulta e conseguiu um emprego em uma grande construtora, ficando responsável pela elaboração dos cálculos estruturais das sacadas de um prédio. Ocorre que as aulas a que tinha estado ausente eram exatamente as que ensinavam esse tipo de cálculo e como não sabia, buscou as instruções na Internet e cumpriu o solicitado pelo empregador. No entanto, as instruções tinham sido disponibilizadas por uma pessoa que não tinha o conhecimento necessário para isso e o resultado foi a ruína do prédio alguns anos depois, por causa dos cálculos errados das sacadas. Quem foi o responsável pela queda do prédio?

Um terceiro caso é o de um advogado que em uma ação trabalhista, aceitou um acordo inadequado para seu cliente, o funcionário, por causa da pressão de seu chefe para agilizar o encerramento do processo, que estava se alongando mais do que previsto na estimativa de custos iniciais. A questão é que por causa disso o funcionário perdeu sua casa, porque o valor mensal que recebia não era suficiente para arcar com o compromisso assumido, pois a compra foi feita após promessa da empresa, não cumprida, de que ele teria estabilidade durante o período de pagamento das prestações intermediárias. De quem é a culpa pela perda da casa?

É óbvio que os envolvidos – aluno, engenheiro e advogado – são os responsáveis diretos pelas consequências das ações, mas serão os únicos? Cabem algumas reflexões éticas e legais nesse sentido.

No primeiro caso, o professor e o dirigente da escola não são responsáveis? Se o programa do curso não incluía o desenvolvimento da capacidade de utilização do conhecimento considerando os demais elementos do contexto, com certeza também têm responsabilidade ética sobre o uso do conhecimento mal aplicado.

Embora o engenheiro seja o responsável legal pelo problema do prédio, tendo que responder oficialmente pelas consequências, ele não é o único. A escola que aprovou-o sem as condições necessárias para o exercício da profissão e até mesmo a pessoa que disponibilizou o conteúdo incorreto têm responsabilidade ética sobre a queda do edifício.

E no caso do advogado, a mesma lógica se aplica: a situação de falta de moradia do funcionário é de responsabilidade dele, do chefe e até mesmo da empresa que não cumpriu o que havia inicialmente definido.

Embora oficialmente os demais não possam ser acionados legalmente, do ponto de vista ético, cada uma das pessoas citadas é co-responsável, pois teve contribuição no profissional que colocou no mercado ou nas ações praticadas sob seu comando.

E você, já parou para pensar nas consequências do que faz?

Lembre-se que tu te tornas responsável pelo que crias, ontem, hoje e sempre.

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