Tempos mudados
Deciozinho respirou fundo e deu o primeiro passo em direção à poltrona do papai. O pai estava sentado em frente à televisão e só olhou para o lado depois do segundo “caham” do filho.
- Pai, eu queria conversar com o senhor.
Seu Deciozão colocou o controle do videogame no chão e olhou par ao filho. Só pelo tom e pelas mãos trêmulas, sabia que não vinha coisa boa.
- Pai, eu... é que eu sou... bem... eu... – respirou fundo e soltou: – Pai, eu sou heterossexual!
O pai ficou estático.
- Heterossexual?!
- É, pai, eu gosto de mulher.
- Eu sei o que significa heterossexual, menino, só que eu achava que... bem... logo você... – Seu Deciozão colocou a mão nos ombros do filho e prosseguiu – Bem, se você é feliz assim, meu filho, tudo bem, desde que você não faça mal a ninguém.
O menino estava com os olhos cheios de lágrimas. Sabia que podia contar com Seu Deciozão e com o namorado de seu pai também.
Quando Deciozinho estava saindo da sala, o pai disse:
- Mas me diga uma coisa: você pensa em... em, bem, você sabe... Casar.
- Penso sim, pai. Quero conhecer uma moça direita, a quem quero fazer feliz e com ela vou me casar. Nós vamos alugar uma casa, depois comprá-la quando der e até penso em ter filhos.
- Filhos?! Ai...
- Sim, talvez até coloque no primeiro deles o nosso nome, daí todo mundo vai chamar ele de Décio Neto. E penso em ter um ou dois carros, dois ou três cachorros e convidar quatro ou cinco casais vizinhos para jogar baralho no sábado à noite. Eu sonho em buscar o Neto na escola, em levar minha esposa grávida para o hospital, em trocar a fralda da Aninha, isto é, quando ela chegar. Quero que meus filhos façam primeira-comunhão, quero ir à Missa no domingo cedo, comer macarronada com a mamãe e viajar nas férias das crianças.
O pai balançou a cabeça, ainda meio atordoado, “fazer o quê, né, tem gosto para tudo” e o filho voltou para o quarto ouvir seus discos de vinil do Guilherme Arantes.
O pai, um homem de piercing e sem muito espaço no corpo para novas tatuagens, antes de voltar a jogar Tomb Raider, falou para o boneco do Wolverine, que ele mantinha na estante da sala:
- Aonde é que esse mundo vai parar, meu caro Logan?