Somos todos Charlie (ou não)
A intolerância assusta. Ou, pelo menos, deveria assustar. Não aceitar o outro por suas diferenças com relação a si próprio, não é uma pratica nova, mas também não deveria ser uma prática aceitável. O ataque a revista Charlie Hebdo aponta algumas questões a serem pensadas e debatidas. Logo após os ataques e como um tsunami, uma onda de ativismo pro liberdade de expressão atingiu as redes sociais. A hashtag "Je Suis Charlie" (eu sou Charlie, em tradução livre do francês), reinou em quase todas as postagens. "O riso é uma forma de protesto" dizia uma delas. Concordei.
Mas antes disso, o padrão cultural da sociedade francesa deve ser levado em consideração para pensarmos em relação ao fato. "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei a sua liberdade de dizer", é uma característica da sociedade francesa. Dessa forma, a intervenção às charges daquele jornal, seja violenta, seja a pedido da sociedade civil, ou mesmo do governo, seria impensável e constitui-se uma afronta à própria sociedade francesa. Isso explica em parte a forte reação dos franceses ao crime: manifestação pública de repúdio, com milhares de pessoas nas ruas.
Outras leituras se sucederam sobre o caso. Novas reflexões e discussões.
O que é liberdade de expressão? Será mesmo que é a possibilidade de eu dizer o que eu quiser, enquanto o outro, em nome da liberdade de expressão, tem que engolir a seco a minha opinião? Será que em nome da liberdade eu posso ofender, atacar ou diminuir alguém? Definitivamente, não.
É claro que um erro não justifica o outro, e que nenhum erro justifica a brutalidade de um assassinato: seria matar uma mosca com um canhão. Não dá pra dizer, em hipótese alguma, que os chargistas mereceram o fim que tiveram. Mas, igualmente, não podemos ver neles santos inocentes. Desrespeito é algo que deveria ser condenável. A brincadeira e a piada com a fé de outrem, é legítima? E, se legítima, é aceitável? O fato nos obriga à reflexão, uma vez que coloca (erroneamente, na minha opinião), liberdade e respeito como pratos opostos em uma balança, sem levar em consideração que não existe liberdade se não houver respeito. Por outro lado, nos faz perceber que a intolerância religiosa não tem limites, e que as vítimas podem ser tão numerosas quanto mais influentes. Não há solução possível, mas definitivamente, excluir, atacar mesquitas e fazer gozações dos islâmicos nos leva para o caminho contrário.