Publicado: Quarta-feira, 4 de maio de 2005
Sobre ser daltônico
Certo dia, Fátima teve de ir à escola, pois recebera da professora do Marquinhos um estranho bilhete: "Preciso Falar. Urgente. Grave. Tia Cleide".
Como parecia um código usado durante a II Guerra Mundial, só poderia ser uma catástrofe.
- Queira sentar-se, dona Fátima - pediu a professora.
Fátima sentou-se vagarosamente, os olhos arregalados, as mãos trêmulas e as pernas bambas.
- O que aconteceu professora? A senhora está me assustando! O Marquinhos...
- Eu vou ser direta. Sem enrolação. Porque enrolação não leva a lugar nenhum. A não ser que você apresente um programa sensacionalista. Ou precise contar que alguém morreu. Portanto, como não sou João Kleber e não estou sabendo de morte alguma... vou ser direta!
- Pode falar, professora.
A professora suspirou, olhou para a janela e, bem ao estilo novela mexicana, contou:
- Ontem, pedi que as crianças fizessem um desenho sobre a casa onde queriam morar. Nenhum problema até aí. Nenhum mesmo. Mas quando peguei o desenho do seu filho, a grama estava laranja e as montanhas vermelhas. Imaginação fértil, pensei na hora. Mas quando peguei o mapa do Brasil que ele desenhou na semana passada, percebi que ele tinha pintado o mapa de... de... de roxo!
Dona Fátima estava impaciente. Não entendia muito bem o que estava acontecendo. Ou não queria entender.
- A senhora acha que...
- Dona Fátima, teu filho é daltônico!
Dona Fátima encolheu na cadeira.
- Daltônico?! O Marquinhos?! Meu Deus, por que comigo? O que fiz para merecer isso?
Pode parecer estranho, mas dias atrás me perguntaram como minha mãe ficou quando descobriu que eu era daltônico. Ficou normal. E não poderia fazer como "Dona Fátima", pois o pai dela é daltônico também. Se misturo as cores, parte da culpa é dela.
Ser daltônico, nesse mundo de liberdade de expressão é extremamente engraçado. Um dia, quando minha colega me perguntou como era ser daltônico, eu expliquei:
- A única coisa chata é que as pessoas sempre perguntam: "que cor é essa?".
Nossa professora de diagramação me ouviu falar e se espantou:
- Nossa! Você é daltônico! Que cor você está vendo aqui no computador?
E assim segue a vida dos daltônicos. No meu caso, confundo mais marrom e vermelho, azul escuro e roxo.
Mas tem gente que é pior. Fiquei sabendo de um sujeito que confundia, acreditem, AZUL com AMARELO!
Azul e amarelo!
Minha colega, aluna dele, disse que ele não gostava de loiras porque via as moças com os cabelos azuis. Cabelos azuis!
Outro problema é quando tenho de dar alguma referência. Um dia eu disse para minha mãe:
- Está vendo aquele fusca vermelho? Tem um adesivo que eu...
- Que fusca vermelho? Não tem nenhum carro vermelho aqui!
O semáforo é o mais complicado. Principalmente na Avenida Jundiaí (em Jundiaí). Quando escurece, o verde do semáforo se parece muito com as lâmpadas meio amarelas dos postes. A solução é memorizar a seqüência, de cima para baixo: pare, aguarde e corre!
E eu corro. Corro, antes que pegue outra lâmpada muito parecida com o verde do semáforo.
Ser daltônico é engraçado e perigoso.
Como parecia um código usado durante a II Guerra Mundial, só poderia ser uma catástrofe.
- Queira sentar-se, dona Fátima - pediu a professora.
Fátima sentou-se vagarosamente, os olhos arregalados, as mãos trêmulas e as pernas bambas.
- O que aconteceu professora? A senhora está me assustando! O Marquinhos...
- Eu vou ser direta. Sem enrolação. Porque enrolação não leva a lugar nenhum. A não ser que você apresente um programa sensacionalista. Ou precise contar que alguém morreu. Portanto, como não sou João Kleber e não estou sabendo de morte alguma... vou ser direta!
- Pode falar, professora.
A professora suspirou, olhou para a janela e, bem ao estilo novela mexicana, contou:
- Ontem, pedi que as crianças fizessem um desenho sobre a casa onde queriam morar. Nenhum problema até aí. Nenhum mesmo. Mas quando peguei o desenho do seu filho, a grama estava laranja e as montanhas vermelhas. Imaginação fértil, pensei na hora. Mas quando peguei o mapa do Brasil que ele desenhou na semana passada, percebi que ele tinha pintado o mapa de... de... de roxo!
Dona Fátima estava impaciente. Não entendia muito bem o que estava acontecendo. Ou não queria entender.
- A senhora acha que...
- Dona Fátima, teu filho é daltônico!
Dona Fátima encolheu na cadeira.
- Daltônico?! O Marquinhos?! Meu Deus, por que comigo? O que fiz para merecer isso?
Pode parecer estranho, mas dias atrás me perguntaram como minha mãe ficou quando descobriu que eu era daltônico. Ficou normal. E não poderia fazer como "Dona Fátima", pois o pai dela é daltônico também. Se misturo as cores, parte da culpa é dela.
Ser daltônico, nesse mundo de liberdade de expressão é extremamente engraçado. Um dia, quando minha colega me perguntou como era ser daltônico, eu expliquei:
- A única coisa chata é que as pessoas sempre perguntam: "que cor é essa?".
Nossa professora de diagramação me ouviu falar e se espantou:
- Nossa! Você é daltônico! Que cor você está vendo aqui no computador?
E assim segue a vida dos daltônicos. No meu caso, confundo mais marrom e vermelho, azul escuro e roxo.
Mas tem gente que é pior. Fiquei sabendo de um sujeito que confundia, acreditem, AZUL com AMARELO!
Azul e amarelo!
Minha colega, aluna dele, disse que ele não gostava de loiras porque via as moças com os cabelos azuis. Cabelos azuis!
Outro problema é quando tenho de dar alguma referência. Um dia eu disse para minha mãe:
- Está vendo aquele fusca vermelho? Tem um adesivo que eu...
- Que fusca vermelho? Não tem nenhum carro vermelho aqui!
O semáforo é o mais complicado. Principalmente na Avenida Jundiaí (em Jundiaí). Quando escurece, o verde do semáforo se parece muito com as lâmpadas meio amarelas dos postes. A solução é memorizar a seqüência, de cima para baixo: pare, aguarde e corre!
E eu corro. Corro, antes que pegue outra lâmpada muito parecida com o verde do semáforo.
Ser daltônico é engraçado e perigoso.
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