Seu Bernardo do Campo
A história de Seu Bernardo é simples: nasceu, cresceu e se casou na fazenda. Depois se mudou com a esposa para a cidade, mais precisamente para nossa amada Querengué. Lá em Querengué ele durou muitos anos, mas a esposa morreu logo, vítima de uma bala perdida (até em Querengué tem dessas coisas, é o fim do Apocalipse!). Assim, sem filhos e agora sem esposa, ele ficou cuidando sozinho do Açougue Querengué.
Um dia, três anos após a morte da esposa, Seu Bernardo resolveu alugar um filme. Refletiu e percebeu que nunca tinha alugado (nem visto ou muito menos comprado) um filme pornô. Sim, amigos da Rede Querengué, nunca tinha assistido a nenhum desses filmes em que as pessoas fabricam filhos sem querer tê-los.
O coitado do nosso amigo entrou na 100% Filmes (uma locadora de vídeo de Querengué) e foi cautelosamente caminhando até a seção PROIBIDO PARA MENORES DE 18 ANOS.
Seu Bernardo: Aqui é que é a seção dos filmes de terror?
Um rapaz: Não senhor, aqui é a seção dos filmes de mulher pelada.
Seu Bernardo: Oh! Sério?! Que coisa, não?! Deixa eu dar uma olhada nisso meu jovem!
Passou pela cabeça dele — assim como passa pela cabeça de todo mundo que está fazendo algo íntimo na vida — que algum cliente poderia chegar e reconhecê-lo. “Vai fundo meu rapaz!”, ele leu na capa do filme. Era um sinal. “Cuidado que tem gente espiando!”, ele leu em outro filme. Era outro sinal, só que inverso. “Tenho mais que 18 e sei cuidar de mim!”. Era o nome de outro filme. Pegou esse e saiu da salinha.
- Seu Bernardo do Campo! — alguém gritou lá da porta da locadora. Nesse momento ele estava passando pela seção de filmes infantis. Então ele colocou o filme entre “Procurando Nemo” e “Histórias do Patinho Inocente”. Depois saiu da loja apressadamente.
No dia seguinte.
Balconista do Açougue: Seu Bernardo, telefone para o senhor.
Seu Bernardo do Campo: Quem é?
Balconista do Açougue: Alguém da locadora de filmes.
Seu Bernardo do Campo: (pegou o telefone) Pois não?
Alguém da videolocadora: Sr., nossa câmera interna detectou um equívoco do senhor que fez com que uma criança alugasse um filme inadequado à sua idade. A família dela está querendo processar a loja e infelizmente teremos de contar que o erro não foi nosso. A informação vazou e tem um jornalista aqui perto de mim querendo saber seu telefone.
Seu Bernardo era um dos anunciantes na Folha de Querengué e isso permitiu que ocaso fosse abafado. Ontem, quando o Seu Bernardo veio a Itu, eu conversei com ele sobre o caso.
Ele falou: “Sabe quando você não passa nem perto de um comércio de tão envergonhado que ficou lá dentro?”
Eu falei: “Sei como é. Uma prima minha vomitou num shopping e proibiu toda família de voltar lá, como se a culpa fosse do lugar ou nossa.”Ele falou: “É mais ou menos isso, Felipe, mais ou menos isso.”