Publicado: Quarta-feira, 1 de junho de 2005
Ser sozinho
Ser sozinho é diferente de sentir só. Às vezes estamos inseridos numa multidão e não conseguimos sentir a presença de ninguém. Isso pode acontecer pela exclusão social, que sabemos que acontece em nossa sociedade. Mas há outra raiz para a solidão: a exclusão emocional, que está muito mais em nós do que nos outros.
É por isso que hoje vamos falar...
Sobre o Concurso Cultural de Querengué
Há alguns anos, fizeram um concurso em Querengué, para o incentivo da manifestação artística na cidade. A prefeita Isabelita decidira que o tema do Primeiro Concurso Municipal Cultural Professor Antonio Querengué - alguns não concordaram com a extensão do nome - seria a solidão.
- Como assim "solidão"? - o secretário da Cultura questionou - O tema é muito abrangente, temos muitas definições para solid...
- Por isso mesmo eu ia anunciar agora o subtema do Concurso: "as várias maneiras da solidão aparecer".
O secretário insistiu:
- Mas como assim manifestações artísticas?! Poderíamos definir melhor isso. Talvez Concurso de Dança, ou de Poesia, ou quem sabe de Paródias... Penso que "manifestações artísticas" fica muito amplo e ao mesmo tempo muito vago.
A prefeita olhou firme para o secretário e ele permaneceu calado o restante da noite. Dizem, os fofoqueiros políticos da cidade, que foi por causa disso que ele perdeu o cargo na secretaria de Cultura. Mas não ficou afastado da vida política, pois era casado com aquela que o demitira: a prefeita Isabelita.
Para os secretários ali reunidos na sala vermelha, ela continuou:
- Então, como eu dizia, o Concurso abrirá as inscrições amanhã, no prédio da prefeitura. Espero que, dentro das possibilidades, os senhores incentivem a participação da população - a prefeita agradeceu os secretários e outros funcionários presentes e todos foram para casa, onde teriam de pensar em como incentivar o departamento de contabilidade a participar de um concurso cultural desses.
Mas a população aderiu à idéia.
Passados os devidos dois meses de inscrição, chegou o grande dia da apresentação das "manifestações artísticas".
Foram vários os candidatos, várias as performances e poucos os escolhidos para a grande final. No palco armado no centro da cidade, a prefeita deu início à grande final, sob os olhares ansiosos da população.
Naquele domingo, às seis horas da tarde, centenas de querengüenses estavam reunidos na Praça Água Rasa, alguns torcendo por parentes outros contra os parentes que participavam da competição.
O primeiro candidato, o professor de Filosofia, Geraldo Tomaz Inni, trouxe uma pedra ao centro do palco.
- Solidão. Sete letras, três sílabas e um resultado profundo. Choro, dou risada, canto e fico mudo. E nada! Me sinto abandonado pelo mundo que cada vez mais chega para dentro de mim. Isso é solidão!
Foi muito aplaudido em pé pelos presentes. Suas alunas do primeiro colegial gritavam em coro com cartazes feito com cartolina, canetinha e gliter: "já ganhou, já ganhou!". Seus alunos, para sacanearem o tímido professor, gritavam: "lindo, tesão, bonito e gostosão". E deu certo: o professor saiu chorando do concurso para as ruas escuras da cidade.
A próxima candidata foi a faxineira da escola municipal Hermelindo Boa Nova. Sua participação tinha sido impecável com a paródia de New York, New York, nas eliminatórias do Concurso. Agora ela prometera algo novo, bem diferente.
Marcinha - esse era o nome dela - subiu ao palco e levantou uma imensa placa de metal, sem nada escrito ou se quer desenhado.
- Definir solidão, meu povo, é definir o indefinível! Nem Deus quis ser sozinho no universo, por isso criou o homem parecido com Ele. A solidão pode ser um veneno para uns, mas pode ser a salvação para outros. Se ficar sem namorar é triste, imaginem, então, acordar todos os dias com o mesmo homem fedendo a cachaça. Solidão é isso!
Resultado dessa participação:
- alguns risos;
"Essa foi demais! O Juarez cheira a cachaça mesmo!"
- jurados decepcionados;
"Prefiri a coreografia à La Frank Sinatra!"
- candidata desclassificada;
"Você não devia ter usado nome de terceiros, mesmo que seja seu marido."
- faxineira com novo emprego;
"Agora que a escola está sem professor de Filosofia, você não quer tentar dar aulas?"
- e professora sem marido;
"Nunca fui tão humilhado em público!"
A última daquela noite foi a menininha Susi. O nome já diz que era uma boneca. O jornal da cidade questionara se os jurados não tinham sido influenciados pela graça que uma menina de quatro anos exala só por existir. Mas depois, em outro editorial, reconheceu o talento de Susi ao cantar "meu ursinho Pimpão" em alemão. Susi estava, sem contradições, classificada para a grande final do Concurso.
Naquela noite, ela trazia consigo o ursinho companheiro de todas as noites - e recreios da escola - e usava o mesmo laço azul na cabeça. Seus cabelos negros pareciam escurecer mais ainda seus olhos de jabuticaba madura. Seus sapatinhos... - acredito que todos já perceberam o quanto ela era engraçadinha, não precisamos mais de tantos detalhes.
Ela se aproximou da beira do palco, agarrada com o ursinho, balançando o vestido.
- Oi, eu sou a Susi! Ontem, eu perguntei para a minha mamãe o que era solidão. Ela me disse que solidão é o que o bombom de café e o de banana sentem quando a caixa de bombom esvazia.
Todos gritaram em coro: "ohohohohoh!".
Sua mãe, em lágrimas, puxou as palmas que, começaram no ritmo do coração de nenê e depois se transformaram numa tempestade de sons desconexos.
E, como literalmente começou a chover, todos correram para sua casa. O pai de Susi carregava o troféu que, maior do que a filha, enchia com a água da chuva.
- Vamos deixar ele aqui, filhinha, amanhã a gente pega! Está muito pesado!
Correram todos para casa.
Todos daquele bairro ficaram ali na janela, até tarde da noite, vendo o professor Geraldo agachado, agarrado ao imenso prêmio que não lhe pertencia.
- É meu! Por direito, ele é meu! Eu venci o Concurso! Eu venci!
É por isso que hoje vamos falar...
Sobre o Concurso Cultural de Querengué
Há alguns anos, fizeram um concurso em Querengué, para o incentivo da manifestação artística na cidade. A prefeita Isabelita decidira que o tema do Primeiro Concurso Municipal Cultural Professor Antonio Querengué - alguns não concordaram com a extensão do nome - seria a solidão.
- Como assim "solidão"? - o secretário da Cultura questionou - O tema é muito abrangente, temos muitas definições para solid...
- Por isso mesmo eu ia anunciar agora o subtema do Concurso: "as várias maneiras da solidão aparecer".
O secretário insistiu:
- Mas como assim manifestações artísticas?! Poderíamos definir melhor isso. Talvez Concurso de Dança, ou de Poesia, ou quem sabe de Paródias... Penso que "manifestações artísticas" fica muito amplo e ao mesmo tempo muito vago.
A prefeita olhou firme para o secretário e ele permaneceu calado o restante da noite. Dizem, os fofoqueiros políticos da cidade, que foi por causa disso que ele perdeu o cargo na secretaria de Cultura. Mas não ficou afastado da vida política, pois era casado com aquela que o demitira: a prefeita Isabelita.
Para os secretários ali reunidos na sala vermelha, ela continuou:
- Então, como eu dizia, o Concurso abrirá as inscrições amanhã, no prédio da prefeitura. Espero que, dentro das possibilidades, os senhores incentivem a participação da população - a prefeita agradeceu os secretários e outros funcionários presentes e todos foram para casa, onde teriam de pensar em como incentivar o departamento de contabilidade a participar de um concurso cultural desses.
Mas a população aderiu à idéia.
Passados os devidos dois meses de inscrição, chegou o grande dia da apresentação das "manifestações artísticas".
Foram vários os candidatos, várias as performances e poucos os escolhidos para a grande final. No palco armado no centro da cidade, a prefeita deu início à grande final, sob os olhares ansiosos da população.
Naquele domingo, às seis horas da tarde, centenas de querengüenses estavam reunidos na Praça Água Rasa, alguns torcendo por parentes outros contra os parentes que participavam da competição.
O primeiro candidato, o professor de Filosofia, Geraldo Tomaz Inni, trouxe uma pedra ao centro do palco.
- Solidão. Sete letras, três sílabas e um resultado profundo. Choro, dou risada, canto e fico mudo. E nada! Me sinto abandonado pelo mundo que cada vez mais chega para dentro de mim. Isso é solidão!
Foi muito aplaudido em pé pelos presentes. Suas alunas do primeiro colegial gritavam em coro com cartazes feito com cartolina, canetinha e gliter: "já ganhou, já ganhou!". Seus alunos, para sacanearem o tímido professor, gritavam: "lindo, tesão, bonito e gostosão". E deu certo: o professor saiu chorando do concurso para as ruas escuras da cidade.
A próxima candidata foi a faxineira da escola municipal Hermelindo Boa Nova. Sua participação tinha sido impecável com a paródia de New York, New York, nas eliminatórias do Concurso. Agora ela prometera algo novo, bem diferente.
Marcinha - esse era o nome dela - subiu ao palco e levantou uma imensa placa de metal, sem nada escrito ou se quer desenhado.
- Definir solidão, meu povo, é definir o indefinível! Nem Deus quis ser sozinho no universo, por isso criou o homem parecido com Ele. A solidão pode ser um veneno para uns, mas pode ser a salvação para outros. Se ficar sem namorar é triste, imaginem, então, acordar todos os dias com o mesmo homem fedendo a cachaça. Solidão é isso!
Resultado dessa participação:
- alguns risos;
"Essa foi demais! O Juarez cheira a cachaça mesmo!"
- jurados decepcionados;
"Prefiri a coreografia à La Frank Sinatra!"
- candidata desclassificada;
"Você não devia ter usado nome de terceiros, mesmo que seja seu marido."
- faxineira com novo emprego;
"Agora que a escola está sem professor de Filosofia, você não quer tentar dar aulas?"
- e professora sem marido;
"Nunca fui tão humilhado em público!"
A última daquela noite foi a menininha Susi. O nome já diz que era uma boneca. O jornal da cidade questionara se os jurados não tinham sido influenciados pela graça que uma menina de quatro anos exala só por existir. Mas depois, em outro editorial, reconheceu o talento de Susi ao cantar "meu ursinho Pimpão" em alemão. Susi estava, sem contradições, classificada para a grande final do Concurso.
Naquela noite, ela trazia consigo o ursinho companheiro de todas as noites - e recreios da escola - e usava o mesmo laço azul na cabeça. Seus cabelos negros pareciam escurecer mais ainda seus olhos de jabuticaba madura. Seus sapatinhos... - acredito que todos já perceberam o quanto ela era engraçadinha, não precisamos mais de tantos detalhes.
Ela se aproximou da beira do palco, agarrada com o ursinho, balançando o vestido.
- Oi, eu sou a Susi! Ontem, eu perguntei para a minha mamãe o que era solidão. Ela me disse que solidão é o que o bombom de café e o de banana sentem quando a caixa de bombom esvazia.
Todos gritaram em coro: "ohohohohoh!".
Sua mãe, em lágrimas, puxou as palmas que, começaram no ritmo do coração de nenê e depois se transformaram numa tempestade de sons desconexos.
E, como literalmente começou a chover, todos correram para sua casa. O pai de Susi carregava o troféu que, maior do que a filha, enchia com a água da chuva.
- Vamos deixar ele aqui, filhinha, amanhã a gente pega! Está muito pesado!
Correram todos para casa.
Todos daquele bairro ficaram ali na janela, até tarde da noite, vendo o professor Geraldo agachado, agarrado ao imenso prêmio que não lhe pertencia.
- É meu! Por direito, ele é meu! Eu venci o Concurso! Eu venci!
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