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Publicado: Quinta-feira, 14 de junho de 2012

Sarau ytuano

Há doze anos temos realizado em Itu um tipo de evento cultural que chamamos sarau. O nome é bastante utilizado ainda nos dias de hoje para encontros culturais ligados à literatura, à música e à contação de histórias. O tipo de evento que promovemos, seja com o Coral Vozes de Itu ou com o Madrigal do Museu da Música, é uma performance com atores, cantores e músicos, cujo objetivo principal é oferecer ao público certo contato com o que foram saraus e bailes realizados em Itu nas décadas de 1860 a 1890, realizados pelos músicos mais expressivos da cidade naquele tempo.

Costume trazido do Rio de Janeiro por Elias Lobo, os saraus eram encontros que reuniam a elite econômico-social da cidade, em casas elegantes, a fim de exibirem-se os músicos ituanos e convidados. O repertório era a música italiana de então e as obras de alguns brasileiros como Carlos Gomes e o próprio Elias Lobo.

Fruto de muita pesquisa, o roteiro que propomos ao sarau, geralmente leva os participantes a uma experiência sensível sobre a vida, os costumes, a economia e o ambiente cultural da elite local na segunda metade do século XIX. A narrativa, incorporada pelos atores, é entremeada de música cantada pelo coro, acompanhada de piano. Árias e coros clássicos, de óperas italianas, se amarram a peças também belíssimas, mas pouco conhecidas do público. O coroamento do espetáculo se dá com um coquetel, em que se experimenta um tanto do receituário da gastronomia paulista do século XIX.

Outro elemento importante no sarau ytuano é a possibilidade do público adentrar o espaço de casas antigas, observar o tipo de mobília e objetos próprios do século XIX. 

A sensibilização da sociedade, através de eventos como este, é uma vitória sobre a cultura de massa e sobre o diminuto relacionamento que temos com o patrimônio musical brasileiro e com a memória da nossa gente.

O sarau que vamos realizar no próximo dia 23 de junho, véspera de São João, será ambientado na casa sede da Chácara do Rosário, construção de inspiração bandeirista, de 1756, que traz o casal João Batista e Gabriela Emília Pacheco Jordão, patriarcas da tradicional família da cidade, como anfitriões, além do sobrinho músico Francisco de Assis Pacheco Neto e cantores e cantoras atuantes na cidade no final do século XIX. Destaque para trechos da ópera A Noite de São João, do nosso Elias Lobo, muito apropriada para a ocasião.

Olhando por outro lado, o sarau ytuano também é significativo porque o valor resultante dos ingressos pagos pelo público é transformado em outras ações culturais. Em 2012 o Museu da Música está recebendo cerca de 900 alunos de escolas públicas municipais para ações educativas gratuitas que contemplam o patrimônio musical ligado ao gênero de serestas. Só de pensar que há adolescentes em Itu ouvindo a música de nossos compositores e reconhecendo-as como patrimônio, creio que tudo isso já se torna significativo.

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