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Publicado: Quarta-feira, 5 de março de 2014

Salvador

A quem se dê – e são tantos que o fazem – de apreciar o saudável entretenimento de viajar neste país de atrações tão favoráveis e convidativas, cuida logo de aproveitar de quanta oportunidade surja para isso.

Motivos de se deslocar e se entregar a um desses devaneios, que tanto surgem na própria ideia de cada um, como também pela infinidade de ofertas de variado alcance.

Mesmo quem esteja habituado a viagens, sem que ele mesmo perceba, um dia ele retorna a determinado local, embora quando de lá tenha partido um dia,  nem imaginava ou planejava voltar. E essa tendência em geral é concebida fora do plano do consciente, algo como que instintivo.

Evidente que existem pontos turísticos consagrados – Natal, Maceió, Fortaleza, Rio, Gramado/Canela e outros mais. Para esses, volta-se mais vezes, até por influência e companhia de terceiros.

Curiosamente, entanto, como já se salientou ali atrás, há lugares de onde você volta encantado e fica com a impressão de algo tocante, mas que vai acabar em somente mera lembrança para o futuro. Foi ótimo mas passou, uma sensação bem desse jeito. Quase que uma antecipação da saudade.

Com Salvador, um dia, ocorreu isso exatamente.

E não é que para lá, instintivamente, a gente voltou em diversas ocasiões, a passeio. Uma delas, de todo inesperada, até por razões de trabalho.

Agora o fato concreto.

Em fins de fevereiro último, fez-se questão de deixar o mês de março liberado de encargos outros, exceção feita ao dia 15, aniversário dela, para sair à cata de uns dias de passeio descontraído.

Agora o fulcro deste preâmbulo.

Creiam. Acreditem.

De posse de um calendário, daqueles que não distinguem feriados, foram encaixadas duas semanas, providencialmente. Sabidas as datas, procedeu-se à procura das passagens. Altas demais. Por que?

Somente a essa altura – ninguém quer acreditar lá em casa – é que se apercebeu que dentro do período escolhido, vigia o da folia do carnaval.

- Ah, você vai para o carnaval, diziam.

Que é verdadeira essa situação, é o quanto se basta para afirmar que, sim, logo o carnaval da Bahia haveria de estar pela frente, sem que disso a tempo e hora nada houvesse de premeditado.

Situação acabada e definida, eis a deparar agora com a Salvador envolvente de uma aura solta, descontraída e sem pressa.

De carnaval propriamente e ainda por convite de amigos, uma presença no sábado, no camarote da Band, mesmo apenas para ver mais ou menos de perto a Sangalo, Cláudia Leite, Chicletes e aquela infinidade de atrações.

A área central, aquela do farol da Barra para a frente, uma orla infinda de contornos lindos, parques renovados, extremamente bem cuidados e implantados naquele espaço que medeia entre as praias e as avenidas. Estas, recapeadas com um leito liso de asfalto puro e sem mistura de pedriscos, na camada superior.

Atribuem os locais tanta melhoria, mercê da volumosa ajuda de Brasília, a mesma de outras praças, com vistas a uma recepção condigna aos visitantes daqui e de fora, com a proximidade da Copa do Mundo.

De todo modo, nunca se esquecer da velha Bahia.

Tenha alguém andado a esmo no Pelourinho, quantas vezes não o faria de novo?

O pasmo toma-lhe a conta, ao percorrer os interiores recobertos de ouro

puro da Igreja de São Francisco, com voltar os olhares deslumbrados para os lados, para a frente e para o teto? E não apenas ouro se vislumbra em todas as direções; atente-se para os bancos e grades de madeira, primorosamente torneados.

Na saída, repare de novo no magnífico frontispício da parte externa, emoldurada de janelas e portais.

Conseguiria você manter-se mentalmente alheio ou imóvel diante dos retumbantes tambores do Olodum?

E não se traz à tona como se vivo estivesse no estilo único de Jorge Amado, na visita da Casa que lhe consagra o nome?

Conte-se e se admire a religiosidade popular, um amálgama de crenças e ritos, muitos deles de herança viva dos antepassados.

Tudo na Bahia é diferente e diferenciado, muito bom de ali se ficar, conviver, dar-se horas de nada fazer e acima de tudo relembrar um Brasil autêntico e  conservador em toda sua ternura.

Outra notória beleza, numa esplendorosa concessão ao moderno e atual, o miolo da cidade, com uma esfuziante profusão de edifícios arrojados, pela altura e dimensões, numa ousada mas harmoniosa decoração de formas e cores. Sem exagero, um deslumbramento. Um extremo de bom gosto.

Vai daí que, de tempos a tempos, quase que instintivamente, Salvador volta à baila. E quando a gente se dá conta, está lá de novo.

Neste momento é acordar do sonho.

Plena quarta de Cinzas.

Salve Salvador.

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