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Publicado: Quinta-feira, 22 de junho de 2006

Roberto, a Amizade e o Botão de Algodão

Eu tenho um grande amigo chamado Roberto.
Eu acho que ele sabe disso – e espero que saiba mesmo. Roberto é um grande amigo. Tem 9 anos e toda a minha confiança. É um companheiro, apoio presente.

Só a grandes amigos a gente pede grandes favores. Hoje, encomendei a ele, que ama os desenhos, um desenho (de um cenário importante a mim).

Roberto é pessoa que abraça missões com a maturidade do herói da história. Ele sorri, se enche de espírito e voa no pedido. Sela, ali, comunhão. E não decepciona. Adoro pedir coisas a Roberto! Sei que virão com a cara dele: repletas dele e de seu sentimento de mundo. Sem cobranças, com o sentimento da doação.

Por isto, seus tesouros nos contam da cortesia, da gentileza, do respeito e da amizade sincera.

Roberto também é criança guiada pela ponderação, pela reflexão.

Objetivo, concentrado: cria e se destaca. Faz pensar que quem quer, se compromete, se concentra, se descobre e descobre: o mundo. E assim, caminha, cresce, mostra evolução.

Já emocionei-me algumas vezes este ano com a intensidade das marcas de seus trabalhos e participações. A criatividade, a iniciativa, a busca da originalidade e os detalhes de sua obra revelam uma criança que não se deixa levar pelo tempo – ele é quem leva o tempo pelos mundos com os quais se envolve. Com sinceridade preciosa, que não se vende, nem tenciona o segundo valor: ela não visa algo, ela é conseqüência de seu movimento.

Este ano, quando conversamos com Carlos Saldanha (diretor do filme “A Era do Gelo”), e o escutamos falando: “ Sempre adorei desenhar, desde criança ”, pensei e olhei para Roberto. Lá estava ele: não “lá”, mas “lá”, muito longe, completamente compenetrado e participando – pois Roberto ensina isso: que não basta estar em silêncio para estar atento: há a questão do elo mental e afetivo com as coisas do mundo... Elo que ele estabelece tão incrivelmente, porque se importa, se mobiliza, se sensibiliza.

Não poderia ter sido diferente: comovi-me ao receber seu posterior registro sobre a conversa com o diretor: na frente do papel, suas reflexões sobre o filme. No verso – e o verso das coisas sempre revela as “grandes coisas” – estava isto: uma imagem de um garoto, junto dos dizeres em letra bastão: “EU ADORO DESENHAR”.

Sorri. Era ele, Roberto, definindo-se de forma ímpar. Ele era tudo isso, tudo o que cabia nesta grandiosa definição de si mesmo! Eu entendi tudo o que ele queria dizer com ela. Tudo o que cabia nela.

O desenho de Roberto foi enviado a Carlos Saldanha, que respondeu ter ficado impressionado com os traçados de meu amigo. O pequeno sorriu, claro – sorriso não de orgulho, mas de alegria, o que é sempre muito diferente!

Criança que surpreende também em sua sensibilidade forte, de gigante.

Vêm-me à mente a imagem da roda: era uma 2ª feira.
Ali estávamos avaliando um a um a entrega das tarefas de casa: “ Não deu para terminar ”, disse ele. Quase que eu não pergunto o por quê (e as coisas mais importantes também muitas vezes são assim: deixam de ser perguntadas!).

Fato foi que eu perguntei e Roberto partilhou de forma comovente em sua sinceridade e absoluta em sua grandiosidade à nossa formação, o seu maior sentimento naquele momento, provocado pela tão conhecida dor da perda, da saudade pela ausência de uma pessoa querida que se havia ido no fim de semana.

Vi cair a lágrima do herói pelo avô do coração. Silenciosamente, ela brotou.

Hoje, Roberto, você chegou em classe com alguma coisa escondida atrás das mãos. E você sorria, em seu olhar de sapeca, escondendo alguma coisa para mim.

Jamais pensei que eu, na vida, ganharia um botão de algodão! Lá do Mato Grosso! Trazido por você, na sua semana de viagem com seu pai...

Ao olhar aquele algodão, leve, fofo, terno e livre em sua consistência, eu pensei que a vida é assim mesmo: livre como um algodão ao vento – vai, volta, sem tempo certo de vir ou ir: não dá para pegar!

E, se a vida é como esse algodão, que nasce em botão, é porque ela é, como ele, impressionante, encantada, destinada a provocar boas coisas, um dia deixando sementes.

Você é bela semente de um botão de algodão que se iniciou no amor de seus descendentes e deve se orgulhar muito disto!
Se posso lhe dizer algo, Roberto, é isto: do início a este fim, concluindo que você é este amigão – do coração.

Brinque com seus poderes e não se culpe (pelo menos, tente...) quando a vida brincar de testar caminhos diferentes dos mais esperados, porque vai sempre fazer parte... E que bom ser assim, porque é sinal que a aventura continua e que há espaços a serem percorridos!

Olhe o céu. Alimente este fascínio pelo universo das coisas do espaço.

Pesquise tudo que o inquietar.

Continue também sempre escrevendo e descobrindo mais do que a escola pedir a você.

Observe, registre, DESENHE!

Treine para ser o maior dos goleiros, sabendo que já o é!

Procure-nos com seus livros, com seus textos, com seus trabalhos e com suas idéias – seja este co-autor responsável, amável, atuante de nosso mundo.

Continue também ensinando a todos a sua maior arte: arte do respeito, da amizade, da luta, da sensibilidade. Vencendo os limites que aparecerem sem medo, como você faz. Com a responsabilidade e o empenho que fazem você tão gigante neste tamanho pequeno de gente.

Sempre, sorrindo: oferecendo suas surpresas, escondidas em um olhar, em um sorriso, em um botão-surpresa, o maior sentido da vida!

Para você, amigo Roberto, com todo carinho, este meu “desenho pelas palavras” da sua pessoa: com toda minha alegria, por ser a Tia Ju, agora a segurar um botão mágico de algodão...

E ele nunca sairá daqui: da palma da mão do meu coração!

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