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Publicado: Sexta-feira, 17 de março de 2006

Rafael e a Pasárgada das Crianças

Hoje o Rafael chegou na escola com um texto do admirável Calvin. Calvin dos quadrinhos: esta criança toda diferente que faz a gente contemplar a sabedoria pontual dos pequenos e dar boas risadas pela verdade que ali reconhecemos: ingênua, direta, sem rodeios. Verdade de criança.

O Rafael é um leitor que já escolhe o que ama; é muito consciente a respeito da importância da leitura. O Rafa já descobriu que ler faz a gente dar risada, descobrir a Ciência (que ele tanto ama), e, enfim, estar por dentro dos mundos que ele têm interesse.

Chegou com aquela cara de sapeca: “Posso ler na roda hoje um texto deste livro?”

A Roda: um momento de partilhar leituras e descobertas também: iniciamos nosso dia assim. Ele só perguntou porque poderia ter algum outro amigo já se candidatado antes dele.

Rafael começou a ler e eu não conseguiria descrever o que ocorreu com ele naquele momento.

Ele era “um” com o texto - que penetrava suas idéias, suas opiniões e convicções. Havia comunhão: como contar isso? Ele voava.

O protagonismo alegre do Rafael chamava a atenção de toda a roda para ele; primeiras risadas foram aparecendo... E ele ria junto, recitando. E as crianças descobrindo a leitura e a escrita: estes mundos divertidos e curiosos, pelo pequeno Rafael.

“Rafa, você foi um excelente professor hoje.”

“É... Assim as pessoas podem ir lendo brincando.”

Sim, Rafael, é verdade. Eu espero ajudar sempre a vocês a descobrirem isso, se não, não vai valer: é nosso trato.

O Rafael também me ajudou pensando em um lugar para expor este texto na escola. Ele é muito observador; aliás, lê o mundo — não só o livro.

O barato da educação está aqui: cada um, com suas cores, contando sobre o que é relacionar-se, partilhar, construir próprios caminhos e percorrer as aventuras da iniciativa pessoal. Quanto a isso, tempo de vida não quer dizer qualidade maior — mesmo.

Hoje, foi o dia de contar um pouco do Rafael. E o ano se torna muito pequeno para eu poder falar de cada um: afinal, em cada dia, as crianças vão trazendo novas cores, permitindo novas e infinitas descrições.

Tentarei. Será um exercício de relatar o que estas crianças me fazem ver, neste tempo da escola.

Antes de encerrar: surpreende notar a percepção de mundo do Rafael.

O texto do Calvin, que agora peço licença a ele para partilhar com o amigo leitor, lembrou-me a Pasárgada de Manuel Bandeira: lá onde a gente quer morar e ser amigo do rei...

As crianças também têm a Pasárgada delas: Yukon, no discurso e no convite do Calvin, proclamada pelas gargalhadas do Rafael que se deleita já, pequenino que é, com a sátira de um modelo de mundo, de educação, de fazer e reproduzir a vida e esta sociedade.

Só posso iniciar terminar, neste sentimento, em forma de oração: “o Calvin, com sua perspicácia e seu sentido de observação da realidade está no meio de nós! Enquanto uma criança viver na Terra. Assim é.”

O texto que o Rafael levou:

A CANÇÃO DO YUKON

Meu amigo tigre tem um trenó,
E eu já preparei o lanche.
Estamos preparados para a viagem.
Nunca mais vamos voltar!

Estamos deixando a velha vida de lado!
Mamãe e papai, já vou!
Estamos fartos de fazer tudo obrigados,
E agora isso acabou!

Vamos indo para onde neva bastante,
Onde a vida possa ter alguma beleza.
Um lugar onde não se ouça a cada instante,
“Seu quarto precisa de uma limpeza!”

Yukon é o lugar para se morar!
É lá que queremos viver.
Lá poderemos gritar e praguejar,
E agir sem regras para nos reger.

Nunca mais teremos que ir à escola,
Nem seremos forçados à submissão,
Por professores monstruosas e carolas
Que farão a gente aprender a adição.

Não teremos nunca que comer um prato,
De verduras ruins, de amargar.
Nós mastigaremos sem nenhum recato,
Usaremos os talheres que quisermos usar!

Nossos amigos serão os lobos cinzentos.
Ficaremos de pé até tarde e uivaremos pro luar,
Até que a noite finde cantaremos ao relento,
Antes de sairmos para caçar.

Oh, que vida! Mal podemos esperar,
Para estar nas terras áridas,
Onde nos nossos destinos vamos mandar,
E levaremos vidas fantásticas!

Chega de regras de pais e professores!
Vamos em busca de uma terra gelada!
Maus ventos os levem, adultos opressores!
Em busca de Yukon é a nossa caminhada!

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"Yukon": a terra da liberdade.

Sonhada por todos os homens. De todas as idades, espaços e tempos.

A terra das crianças!

Com carinho, Rafael, para você! Desejando sempre o fantástico em sua vida, ainda que:

- não estejamos (sempre) em Yukon;

- eu não saiba se um dia vamos chegar lá...;

- todos nós ainda não saibamos tanto como fazer Yukon acontecer na terra, como no céu da imaginação... Acho que sempre foi assim. Sempre será?

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