Colunistas

Publicado: Domingo, 3 de novembro de 2002

Quando a gente escreve e ... não entendem o jeito da gente!

Não falo de mim, falo de como esse negócio chamado avaliação é dolorido. Para todos... Como a alma da gente sofre entremeio a padrões, modelos, necessidade d'outros exercerem sobre a nossa liberdade o seu dedinho de defeito...
   No lugar chamado escola, colégio ou universidade, isso pode ganhar contornos dos mais fortes... e cruéis!
   (Hoje, escolhi não falar das crianças - e, como posso sentir, as linhas do texto vão tomando direções de dor).
   Quando a gente faz uma coisa, e lembro-me agora delas [das crianças...], e põe ali todo o nosso trabalho, a nossa imaginação, o nosso esforço, o nosso momento de solidão diante da magia da criação, deveria ser obrigatório sermos compreendidos... Mas não é isso o que acontece...
   
   Há o momento em que a nossa alma corre em direção àquele outro mais significativo prá nós: um pai, uma mãe, uma professora, um amigo - pra mostrar o que fizemos; puxa, qual alegria!!!
   "Isto é meu!!! Olha o que eu fiz!!! Fiz sozinha!!! Vê? Lê? Entra no mundo que eu fiz, vai?"
   Você que me lê, agora, imagina os olhos de expectativa do ser criador... São olhos absolutamente necessitados de um outro que a ele se mostre presente... É um ser carente... retrato que comove...!
   
   Penso que a gente pode ver erro em tudo - e é importante sim tomar cuidado para que o nosso pensamento ganhe a qualidade de legibilidade... - mas há necessidade de maior sensibilidade no momento de trocar as nossas impressões diante do ser que confessa, humildemente: só continua vivendo se receber incentivo. Assim somos movidos. Ou: podemos perder a pilha...!
   
   Resolvi falar disso, por sentir (por eu sentir!) aquilo que chamam de 'balde de água fria'. Sentindo-o, me gelei inteira: quantas e quantas vezes eu não fui o próprio para quem participa da minha vida... Vi o erro, e não o pensamento que voou... Vi o que faltou, antes de destacar a qualidade insubstituível da criação que diante de mim se pôs, pedindo meu olhar...
   
   Sabem... Isso é algo muito sério mesmo, que a gente precisa considerar. Lá fora, há um dia inteirinho repleto de exigências, de cobranças, de modelos, de coisas prontas... muito prontas! Há:
   
   A MODA - A TELEVISÃO - AS CAPAS DE REVISTAS - OS MODELOS CIENTÍFICOS DE CONHECIMENTO VERDADEIRO - OS PADRÕES DE PARTICIPAÇÃO...
   
   Percebo agora que paro pra reler o que escrevi, que são coisas de fato muito prontas e que nos deram esse mundo; não sei quanto a você, mas me sensibilizo diante da tristeza de quem, nele, se sente cobrado por algo que não quer (não pode!!!) dar... Não quer porque tem um jeito próprio de ser... Não pode porque é fiel a este jeito, porque não vai no embalo...
   
   Este texto é bastante solitário.
   Foi feito para conversar da dor que é criar e não ser compreendido.
   Se já passei por isso? Se escrevi porque sofri com isso?
   Acho que todo mundo, sim? Às vezes a gente faz o que é o máximo pra gente e descobre que aquele máximo irrita o jeito pronto de querer entender o mundo dos outros. Passei por isso sim e não sei se já disse, mas escrevendo me liberto das minhas broncas... E a de hoje é causada por essa lógica de mundo que senti lá na Faculdade: "Faça a sua parte, universitária, que eu faço a minha; mas faça a sua parte de acordo com a minha..." Não faço, bato o pé como a criança: faço a minha com o meu jeito de fazer a MINHA parte, pois não nasci para copiar ninguém!
   Parênteses ao meu professor...
   (Sabe professor, se fazer de acordo com a sua vontade tivesse a ver com certo ou errado e contar verdades, eu faria, mas... constato que mais tem a ver com um modelo de cópia de fazer ciência e de ler teorias já prontas do que com equívoco de interpretação... Acho que é importante os professores universitários pensarem nisso... Sei que não venho sendo uma aluna brilhante em assiduidade; sei que isso gera desconfiança diante do que produzo e, por fim, pelo que constatei, acabou determinando o pré-conceito que recebi... que não foi ruim, não: foi superior à média. Entendo, mas vamos pensar melhor sobre isso! Se a Unicamp é instituição pública de ensino, de fato torna-se válido encontrar meios de avaliar o compromisso do aluno; e acharia isso justo, ainda que eu falte às aulas por motivos que não se justifiquem aqui... Mas avaliemos com verdade, não com descontos sem sentido... Faltar é faltar; entregar um trabalho sem qualidade de criação é entregar um trabalho sem qualidade de criação. Lembra-se? Ou é muito aceitar que o pensamento do aluno ganha asas além das aulas que recebe? É muito?
   Hoje o senhor sabe que eu poderia estar refazendo o meu trabalho, junto de mais da metade da nossa classe, para melhorar a minha nota. Mas não o estou fazendo, porque eu já tirei o máximo para mim. E recuso-me a escrever mastigadinho; não acho este meio honroso de homenagear autores que hoje ganharam o respeito das gerações simplesmente porque trabalharam toda uma vida deixando com ela a mensagem: "o pensamento é livre..." Não refarei o meu trabalho; seria como pedir a um aluno: "faça outra redação, não gostei do jeito que você escreve..." O nosso curso da Pedagogia (infelizmente!!!) tem dessas coisas, mas sei que 'essas coisas' estão ligadas a toda uma história de formação de alunos, que hoje entendem mais o verbo copiar que o criar. É necessário quebrar o ciclo e não incentiva-lo, professor - ainda que o senhor mesmo se veja envolvido por ele! Com humildade, com educação atendedora das realidades de cada aluno, com humanidade e cuidado para não matar o melhor de cada aluno... O senhor imaginou que poderia ter conseguido?)
   
   A você que me lê diria que: importante mesmo é não renunciar ao máximo da gente; e, enfim, ter a sensibilidade de não repetir o ciclo do sofrimento, o que é mais trabalhoso...
   
   Se essas linhas foram uma forma de ajustar-me diante de uma frustração vivida... que assim sejam... e que assim eu continue fazendo! Antes no branco do papel que no ser humano! Aqui, eu quebro o ciclo do sofrimento... E me dou conta do que ele seja!
   
   Quanto ao mundo... Ele tem coisas (muitas!) que eu não compreendo, mas entendo... Há uma lógica nele de exterminar o principal e incentivar o esdrúxulo... E isto é sério também...
   
   Penso nas crianças: quando fazem e trazem seus textos pra eu corrigir, ler, falar o que achei... Ah, se eu fosse dona do tempo e pudesse dedicar minha vida inteira a ser leitora de cada uma delas... Vontade tenho, mas não posso... A infância, se ela não for estragada - e isto depende da filosofia de educação que se acredita e segue - é o tempo por excelência em que o ser humano não tem medo de ser do jeito dele... E isto não deveria ser perdido, muitos já falaram...
   
   Errei sim muitas vezes e estou no mundo - levei-me por seus embalos - mas não foram eles capazes de me fazer esquecer do que um elogio significa na vida do ser humano. Omiti-me muitas vezes quando deveria ofertá-lo (elogiar tem a ver com generosidade...), escolhi ser mais firme e exigente quando talvez tivesse que ter olhado mais a tentativa que o resultado... Ah: eu sei um pouco de meus erros sim - o mundo é bem contraditório!
   Há dias e dias, todavia. Há formas e formas. Há momentos e momentos... Há limites e brechas...
   
   Há um poder muito forte na palavra. E por causa disso escrevi. Sinto hoje, realmente
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