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Publicado: Terça-feira, 19 de junho de 2007

Período Infértil

Sentado em frente à tela do computador, ele esperava o estalo de Vieira que nunca chegava. Tentou ler revistas, um livro, dois jornais e nada. Foi ver televisão, um filme no cinema, uma exposição de artesanato das senhoras corinthianas católicas e nada. Pensou em sua família, namorada, no cachorro que morrera atropelado pelo caminhão de lixo e nada. Nenhum tema. Nenhunzinho.

Faltava-lhe inspiração e sobrava pressão. O e-mail da editora piscava em sua mente deixando-o ainda mais ansioso e subvertendo seu processo de criação. Antes de trabalhar para o jornal, ele criava quando queria, como queria e se queria. Agora, não. Agora ele precisava escrever, inventar textos engraçadinhos que ajudassem o jornal a vender. Ou apenas preenchessem espaços vazios, como ele julgava as próprias crônicas.

“Já sabíamos dos riscos, dos traços e do desespero antes mesmo de nascermos...”, escrevia. Depois apertava raivosamente o backspace e deletava pra sempre aquela frase estúpida.

“Somos super-heróis se você considerar que alguém, em algum lugar, lembra do seu nome...”. E apagava.
“A grande aventura da vida é buscar a morte em cada pedaço da história. Viver intensamente o presente é, também, viver a morte que nos cabe a cada dia, a cada respirar...”. Backspace. Apagava. Destruía. Esquecia aquilo pra sempre.

Tinha vontade de chorar, de gritar, de desistir de tudo. Um revólver. Pensou em tirar todo o dinheiro do banco e comprar um revólver. Sim, um revólver, ou um pouco de veneno. Uma corda de aço inoxidável, talvez. Nem para morrer ele era criativo.

Então, em um instante de raiva, muita raiva de si mesmo – sim, porque outrora fora um cronista que escrevia com a facilidade de respirar –, sentou-se em frente ao computador, esperou alguns segundos e fez como eu estou fazendo agora: começou a escrever freneticamente sobre alguém que não conseguia escrever. E neste paradoxo, terminou mais um texto. Aliviado, pegou a espingarda que guardara como herança do pai, e a escondeu outra vez no armário.

Depois, no quarto, parou por um instante. E o próximo texto, como seria? Bem, o próximo texto já é história para outro texto. Quem sabe no próximo... 
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