Pensa num Dia Quinze!
Minha Tia Elza trouxe pra cá uma moda que inventou no trabalho (ela vende cachorro-quente e tem um café bar): “Pensa no dia Quinze!”. A frase é mais um dos vários códigos secretos que ela e seus colegas de trabalho inventaram para falar mal dos clientes sem esses perceberem.
O Dia Quinze é aquela pessoa que está na metade do mês, já gastou todo o dinheiro do pagamento e ainda demora um tempo para pegar o vale. O Dia Quinze é aquele que pede cachorro-quente sem salsicha, que pede um fiado atrás do outro, é aquele que fica falando alto é espantando os outros clientes.
O Dia Quinze adora contar piada sem graça da qual só ele ri. Se for preciso ele fica horas a fio ao lado da towner de lanches contando piada atrás de piada e rindo de todas. Ao final, ele nem leva um lanche pra casa, ficou ali só porque não tinha nada de interessante para fazer e para atrapalhar quem tinha.
O Dia Quinze é uma praga, se espalha rapidamente pela cidade, e é altamente contagioso. Ele está na sala de aula tentando colar de você (ou te impedindo de colar do colega), no trabalho (dedurando que você estava no MSN), em casa (sentado no sofá ao lado quando você quer namorar) e até na rua (sabe aquele sujeito que te pára para perguntar a hora, depois pede um cigarro, o fósforo e só não pede para você acender para ele porque você sai de cena?).
Cuidado, o Dia Quinze está por todo canto. Eu, pelo menos, conheço uns quinze. Não costumo marcar o nome deles, muito menos pego telefone. Outra coisa, o Dia Quinze pode ser homem, mulher e até seus pais. Pode ser o cachorro que late às três da madrugada ou o gato que faz cocô no seu quarto.
Há, basicamente, duas modalidades de Dia Quinze: o Nem Sempre e o PhD.
O Dia Quinze Nem Sempre somos eu e você, pessoas legais, tentando se manter gente fina no mundo, mas que hora ou outra pisa na bola e acaba dando uma de chato. O Nem Sempre se torna Dia Quinze quase sempre sem querer, muitas vezes na melhor das intenções.
Agora, o Dia Quinze PhD é o mala-mor (na linguagem emprestada de minha chefe), o Robert (na linguagem do meu chefe), o pêlo encravado, a unha quebrada, o pé-no-saco, a cruz, o purgatório... você entendeu. O Dia Quinze PhD é aquele que te espera chegar na sala de aula e, quando você chega, finge que estava conversando com alguém sobre você. Só para te deixar desconfiado. Evite essa pessoa, ela faz mal ao seu coração. A não ser que você seja muito, mas muito Quinto Dia Útil (tradução: legal), aí você consegue manter um contato civilizado com o Dia Quinze.
O Dia Quinze pode ser um inteligente que se faz de burro (grave) ou um burro que se faz de inteligente (gravíssimo). Em todo e qualquer caso, o Ministério Fonseqüense adverte: o Dia Quinze é prejudicial à sua alegria e manter distância é um sinal de sabedoria. Se algum dia eu virar um Quinto Dia Útil, quero ajudar os Dias Quinze que conheço. Se eu virar Dia Quinze, por favor, seja Quinto Dia Útil e me dá um toque.