Os personagens do meu livro
Desde que nasci, minha família e eu moramos em seis fazendas e uma vez na cidade. Nascer, crescer e viver em fazenda me permitiu conhecer os mais interessantes personagens do livro que é a minha vida. Se um dia eu publicasse, não poderia deixar de falar do:
CIDINHO — Um rapaz macérrimo, cabelos quase-compridos, lisos, um moreno alto muito sorridente. O Cidinho era tratorista na fazenda de Piraju e tinha um dom: era inventor. Ele colocou buzina no trator que dirigia e até fez um farolete usando um pote vazio de xampu. O Cidinho é um dos mais claros exemplos que tenho da realidade dos que “não tiveram chance na vida”. E a família do Cidinho também era muito excêntrica.
FAMÍLIA DO CIDINHO — A Dona Rosa, talvez, era a mais sensata entre eles, não me lembro direito. Eram todos adeptos de uma religião, ou melhor, freqüentavam uma igreja que não permitia ver televisão ou ingerir bebidas alcoólicas. Mas o pai do Cidinho vivia bebendo e pedia aos outros funcionários:
- Num conta pra Rosa! Ela não gosta que eu beba!
A filha deles tinha televisão e via tudo como se não fosse daquela seita recém-criada. E ela tinha um caso com o Van, um funcionário da fazenda. Detalhe: o Van era casado com a Suely, que sabia de tudo.
JUNINHO — Era o filho da nova mulher do Sr. Antonio (que Deus o tenha). Esse menino era o terror da fazenda, todo feriado prolongado a família ia para a Fazenda de Avaré e todo mundo devia ficar longe do Juninho. Imagine a miniatura do Sérgio Malandro, aqueles cabelos cacheados balançando e dando medo, ele era assim! Acontece que o Juninho quase me matou duas vezes. Na primeira, o Juninho e eu brincávamos com o sofá da sala, um empurrando outro pelo chão liso. Foi quando ele tirou o pé do sofá e lançou em direção à minha cabeça. Tenho a cicatriz até hoje!
Em outra, não muito grave, ele apontou o revolver (carregado) do pai dele para mim e quase me borrei. Teve a vez que ele fez cocô atrás da cortina, mas foi na casa deles em São Paulo e, graças a Deus, não participei do caso.
Teve, também, o Montis, que, para conquistar a sua atual esposa, teve que sair com irmão dela. Eu disse irmão, no masculino!!! Só assim o cunhado deu uma força para aproximar o casal. E a mulher do Montis nunca soube disso.
São pessoas que, na sua simplicidade, me marcaram muito (um até deixou marcas profundas na minha cabeça). Vou levá-los comigo para sempre e agora posso dormir mais tranqüilo, pois já fiz o mínimo por eles: os tornei famosos.