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Publicado: Sábado, 27 de julho de 2013

O último orador

Sábado triste: acordado logo cedo com a infausta notícia da morte do Prof. João dos Santos Bispo, senti um vazio, como se faltasse um elemento importante para a vida social de Itu. Certamente, encerrava a trajetória o último orador de uma geração de intelectuais ituanos, que marcou sua existência pela atuação importante em prol da cultura e da educação em Itu, o velho professor, aquela figura essencial, deixava o mundo dos vivos.

Aos 93 anos e sempre muito lúcido, em qualquer prosa, por mais rápida e despretensiosa, não deixava escapar a sua qualidade intelectual, mesmo nos menores comentários, com aquela cortesia principesca.

Representava uma geração formada em retórica, que impressionava em momentos significativos pela palavra fácil, de improviso, raciocínio rápido e consequente, como foram sua irmã, a Profa. Maria Cecília Bispo Brunetti, seu cunhado, Prof. Mansueto Santoro, o Pe. Luiz Gonzaga da Silveira D’Elboux e o amigo Dr.Luís Gonzaga Novelli Júnior, entre outros. Inspirava-se, e muito, em antigos sacerdotes, como o Mons. José Maria Monteiro, Pe. Valdomiro Alvarenga e bacharéis que conhecera na juventude, dentre os quais o Dr. Antonino Teixeira, advogado ituano. Dele citava com frequência um trecho de discurso que marcou as exéquias do compositor Tristão Mariano da Costa Júnior, professor de música de ambos: “quebrou-se a batuta de Itu, Nhonhô Tristão morreu, chorai filhos da minha terra! ”

Prof. João Bispo nasceu em Itu em 1920, filho e neto de comerciantes portugueses. Estudou na primeira turma do Ginásio do Estado, aberto em 1932, instituição que se tornaria o Colégio Regente Feijó, do qual ele foi diretor por vinte e dois anos, entre 1953 e 1977, tempo em que a escola se transformou em extraordinário centro cultural.
Formado em Filosofia, distinguia-se pela leitura de obras importantes do pensamento ocidental, exemplares que permaneceram em sua notável biblioteca, que tratava como joias, livros maravilhosamente encadernados e preservados em elegantes estantes, confeccionadas no Liceu de Artes e Ofícios. Essa mobília era a moldura do seu escritório, verdadeiro santuário da literatura, que conservou até hoje. Da janela desta sala cumprimentava com toda a deferência a quem passasse pela Rua Barão de Itaim, onde vivia com a família havia mais de cinquenta anos.

Conheci-o no sobradão da família Bispo, na Rua Floriano Peixoto, eu muito pequeno, na companhia de sua irmã, Cecília Bispo, figura antológica da nossa cidade. Reencontrei-o como diretor da escola Regente Feijó, onde iniciei os estudos. Fui assíduo frequentador daquela diretoria na qual, apesar das traquinagens, era recebido com sua afabilidade, cafezinho, suave e educada reprimenda. Essa é a memória mais fecunda que me fica desse pequeno grande homem que hoje deixou nossa Itu para sempre.

Muita gente haverá a recordar a companhia do Prof. João Bispo em sua vida. Quero deixar esse testemunho de um homem notável, grande apreciador das artes, em especial da música, com quem eu muito aprendi. Tive o privilégio de ouvir, em sua companhia, a Missa Solene de Beethoven, gravada por Toscanini e seus comentários sobre estética musical. Como esquecer sua preferência pelo violoncelo.

Ficará, certamente, na memória de muitos, o entusiasmo e o compromisso com que entoava o Hino do Ginásio do Estado de Itu: “Refulgindo no céu cor de anil, sobre nós se desdobra o Cruzeiro, prodigioso pendão do Brasil que no alto balouça fagueiro”... estará ele também por lá, agora fagueiro no firmamento, mais uma centelha a velar por esta terra.

Saudade e gratidão!

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