Colunistas

Publicado: Quinta-feira, 30 de março de 2006

O trem

Meio de tarde; eu estava na estrada, quase chegando a Campinas, pela Bandeirantes, um pouco antes do cruzamento desta rodovia com a Anhanguera. Há um ponto da estrada do qual se pode avistar uma linha de trem sobre um grande viaduto, uma interessante obra de engenharia. Já passei por ali inúmeras vezes nesses anos todos, e continuo passando quando me dirijo à PUCC nos dias de aulas. Também muitas foram às vezes que vi um trem passando por sobre a ponte.
Mas, naquela tarde, não sei por qual motivo, o trem estava ali parado; ligado, porém parado. Algo me fez estacionar o carro no acostamento; excepcionalmente, naquele horário eu não estava com pressa. Fiquei ali uns dez minutos, não mais do que isso. Sei que não devia, pelos perigos que hoje corremos nas rodovias, mas parei e lá fiquei admirando o velho trem.
Lembrei-me de uma viagem que fiz, em 1987, quando fui para o Chile, Bolívia e depois para o Peru. Entre as inúmeras aventuras daqueles trinta dias de mochileiro, lembrei-me de um trajeto que cumpri, no Peru, quando fui de Puno à Cuzco. Logo que entrei no vagão, observei que a maioria dos passageiros, inclusive os estrangeiros, prendia suas bolsas ou malas de viagem com correntes e cadeados junto aos maleiros ou poltronas. Fiquei intrigado, não entendi a razão e também não perguntei. Como eu sempre fui preocupado com bagagens durante as viagens, coloquei minha mochila bem debaixo do banco que eu ocupava, fazendo com que a alça ficasse presa a uma das minhas pernas.
A viagem demorou uma eternidade, não me lembro exatamente quantas horas. O trem era bem popular, sem nenhum conforto, ao contrário, faltava pouco para se desmantelar todo. Dentro dele, as "cholas" vendiam de tudo "choclo caliente", banana, etc... Na primeira parada, numa das estações, logo entendi a razão das correntes e dos cadeados. De repente, entravam uns dois ou três homens, em correria, passavam rapidamente pelas poltronas dos passageiros e agarravam o que podiam, saindo pela porta seguinte e desaparecendo no meio das vielas do pequeno vilarejo. Polícia? Nem pensar; os espaços eram terras sem lei. E foi assim em todas as paradas.
Bem, mas o tema é outro. Afora essas lembranças das aventuras que hoje não teria mais coragem de fazer, na tarde que fiquei observando o trem, me deu uma imensa vontade de tomar um comboio daqueles e seguir sem destino, sem horário para ser respeitado, sem previsão de retorno ou sem projeto de volta. Fiquei ali por alguns minutos, com uma vontade imensa de deixar todas as responsabilidades que criamos para nós mesmos e com enorme vontade de seguir a vida por outras sendas, uma parada ou outra num lugar qualquer, um trabalho esporádico, despreocupação com CPF, RG, mensalão, Marcos Valério, Zé Dirceu...
Foram uns dez minutos... Entrei no carro e segui em frente, pensativo, ouvindo algumas canções argentinas. É, não foi dessa vez. Fui até a PUCC, resolvi algumas questões sobre notas de alunos e, logo mais, tive que voltar à uma gráfica nas proximidades da Anhanguera. Na volta para a cidade, entrando pelo trevo da Bosch, a Sul-Leste segue beirando uma linha de trem, talvez a mesma da estrada. E não é que havia ali outro trem seguindo seu rumo. Agora, ele estava ao meu lado, muito próximo, há poucas dezenas de metros. Ajustei a velocidade do carro para acompanhá-lo em seu trajeto e fui seguindo o ritmo do trem, crente que minha viagem havia começado. Num certo momento, a pista e a linha do trem começaram a se separar, se separar, se separar... Melancólico, fiquei observando a felicidade se afastar no ritmo do comboio.
Comentários