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Publicado: Terça-feira, 29 de novembro de 2005

O nome do filho da Dione

A Dione tinha dezessete anos quando pegou barriga. (Feio, né, falar “pegou barriga”, acho que é um costume antigo que devemos deixar para trás, parece que gravidez é doença ou uma obrigação. Então vou começar de novo).

A Dione tinha dezessete anos quando engravidou. Ela vivia com os pais em Querengué, uma cidadezinha mui pequena e cheia de preconceitos. Não é preciso dizer que ela sofreu muito, não só dentro de casa, mas até mesmo por parte do pai da criança. Enfim, adientemos a história, ela viveu os nove meses aproveitando a vida que crescia em seu ventre, decidiu que ia ser a melhor mãe para o seu filho, que se chamaria... se chamaria... bem, isso era um detalhe que ela ainda não tinha resolvido. Sabia que seria um menino, mas não sabia qual nome lhe daria.
Ela pesquisou na internet e achou um rapaz chamado Elvis. Na verdade, o nome completo dele era Elvis Não Morreu. Dione não gostou. Achou uma Elis Regina, Elis Regina Forever (mas esse não dava, né, em primeiro lugar porque a Dione não pegara a fase de sucesso da Elis Regina e segundo porque ia ter um Tom Jobim e não uma Elis Regina).
- Que tal Mascarenhas? Li numa revista que é um nome que traz felicidade para os pais da criança, ainda mais se for registrado com Z no final. — sugeriu uma vizinha, a Sueli Katrina.
- Nem vira, Katrina! E tem mais: quero que meu filho seja feliz, isso é que vai me trazer felicidade.
Pesquisou mais e achou nomes lindos, mas que não poderia usar porque o seu filho — seja lá como se chamasse — talvez recebesse o sobrenome do avô, que era Pinto. Então ela riscou da lista Inácio, Armando, Décio e Caio.
- Que tal Gervásio? Asdrúbal? Timoty? Marco?
- Não, não, não e nunca! Já imaginou na escola na hora da chamada: “Marco Pinto está?” Você se esqueceu que talvez ele receba o nome do meu pai?
Pesquisou mais e acabou chegando na Bíblia, onde praticamente todos os nomes têm um belo significado. Emanuel significa “Deus Conosco”, Jesus é “Javé Salva” e João é “O Senhor é favorável”.
- Meu filho vai ter dois nomes de apóstolos. É isso!
- Que lindo! — disse Katrina — Quais?
Aí é que morava o problema: eram doze apóstolos! Na verdade, onze, pois tinha dois Tiago (o Maior e o Menor). Mas tinha o Pedro que era Pedro e Cefas (e tinha dois Judas, mas um era Tadeu), então ainda eram doze nomes de apóstolos (isso sem contar o Matias, que entrou no lugar do Judas Iscariotes).
- Pedro Filipe? — sugeriu Katrina.
- Não, muito diferente.
- Judas Filipe?
- Vamos fazer uma coisa, Katrina: para facilitar, excluímos Judas por ter sido o traidor, deixamos apenas Tadeu, e tiramos Filipe também. Além de já ter bastante desse aí no mundo, geralmente não são boa gente. E não aceito variáveis como Felipe, Fellipe ou Phellyphe.
- Tá bom. Que tal João Mateus?
- Não.
- Tiago Pedro?
- Não. Parece a dupla sertaneja!
- Mateus Bartolomeu?
- Não estamos na Terra Nostra. Acho que nunca vamos achar um nome Apóstolo-Apóstolo para meu filho!
Dione foi procurar um estudioso na Bíblia. Ele explicou que colocar nomes Apóstolo-Apóstolo nos filhos já estava batido demais. O negócio do momento era colocar um nome Discípulo-Apóstolo.
- Como assim?
- Marcos foi discípulo e João foi apóstolo. Então Marcos João (ou a variável João Marcos) tem saído bastante. A procura só não tem sido muito grande por Marcos Judas (por motivos óbvios), e por Lucas André, que é ainda muito recente.
- É esse! — gritou Dione superanimada. — Meu filho vai se chamar Lucas André! Obrigada.
E assim, o filho da Dione que ia ser um Apóstolo-Apóstolo ficou sendo um Discípulo-Apóstolo.

Realmente, escolher nome de gente não deve ser fácil. Eu, uma vez, tive que nomear uma cachorrinha e já achei difícil, imagine gente-ser-humano! Um nome que a pessoa vai usar na escola, no trabalho, vai ficar famoso, vai receber apelido em cima do nome... Eu hein!

Ah! Só para registrar: nomeei minha cachorrinha de Ottana, em homenagem ao Otto, um cachorro que eu tinha e roubaram.

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