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Publicado: Quarta-feira, 10 de agosto de 2005

O nome dela é Valéria

Entendo que nomear nunca foi tarefa fácil, mesmo porque todo mundo quer dar um nome bonito, diferente e que tenha um sentido bíblico. Mas com cachorro é diferente. A gente tem que tomar muito cuidado, senão acontece o mesmo que aconteceu com a família Pereira...

Ai que bonitinha, como chama?

Estavam preocupados com a nova cachorrinha que haviam ganhado da tia. Aquela família recebera de Natal uma salsichinha com dois anos de idade, já nomeada: Valéria.
Não gostavam de dar nome de gente aos bichos, mesmo morando em uma fazenda rodeados por cachorro, galinha, gato, cavalo, boi, carneiro e até um tucano que visitava a casa de vem em quando. Mas a Valéria já tinha nome e era nome de gente.
Se apegaram àquele pequeno ser vivo e, carinhosamente o chamavam de Val. O que gerava certa confusão, pois o filho mais velho se chamava Valdo. Nome que, familiarmente também vira Val.
Afora esse incômodo, o único embaraço mais sério ocorreu um ano após ganharem a Val(éria).
Estava perto o Natal e as férias já tinham chegado. Os patrões trouxeram à fazenda alguns casais de amigos, que trouxeram seus filhos, que trouxeram seus amiguinhos. Todas as crianças chegavam perto da Valéria e, vendo aquela coisinha comprida e carinhosa, queriam levá-la embora. O Sr. Pereira, quando perguntado pelo nome dela, respondia com outra pergunta:
- Como você se chama? — caso quem perguntasse fosse uma menina.
Por sorte, nenhuma delas se chamava Valéria. Até que chegou outra e também se espantou:
- Ai que cachorrinha bonitinha, como é o nominho dela?
O pai da família estranhou tantos “inhos” numa mesma frase, mas se limitou, outra vez a perguntar o nome da garota.
- Como é seu nome mesmo?
- Eu sou a Bianquinha!
Ufa!
- Ela é a Valéria!
- Oh, o nome da minha mãe! — a menina correu ao pé de uma mulher — Mãe! Mãe! A cachorrinha bonitinha tem seu nominho!
Tiveram de mudar o nome da Valéria. Nem mais Val poderia ser usado. Imagina, uma cachorra com nome dos amigos dos donos da fazenda!
É claro que, embora se chamasse Vereda, dentro de casa ela continuou sendo a Valéria ou apenas Val (se bem que, após conhecerem a Bianquinha, a Val virou a Valzinha).
O governo, as igrejas, as escolas, alguém deveria fazer uma passeata ou encaminhar e-mails pedindo que não se dê nome de gente para cachorro.
Talvez meu desgosto esteja no fato que, dias atrás, uma prima me contou que o cachorro dela se chama Lipe. LIPE! Minha família me chama de Lipe. Quase todo Felipe é Lipe. Felipe que se preze é Lipe! Imagina, eu nunca mais vou visitar essa prima, para não conhecer o outro Lipe, Aquele Que Late. Minha digital me diz que sou único e minha família só comporta um Lipe. Um, apenas um!Por favor, nunca ponham nome de gente em cachorro (e vice-versa, não preciso nem dizer).

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