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Publicado: Quinta-feira, 10 de junho de 2010

O mundo da Copa

O ano é de copa, o clima é de copa, a expectativa é, inconfundivelmente, aquela típica de copa. As ruas estão pintadas, as casas estão enfeitadas, as seleções estão escaladas. Camisas verdes e amarelas estão em peso nas ruas enfeitadas de camelôs, que oferecem uma variedade espantosa de artigos relacionados ao futebol. Camisas, meias, blusas, bolas... copa, copa, copa, copa.

Exceto a seleção, não tenho paciência para torcer por nenhum time de futebol. Não considero sensato ter a responsabilidade de defender ou justificar o que fazem ou deixam de fazer 11 pessoas que eu nem conheço. Acompanho, no máximo, cinco minutos de discussão entre torcedores de times rivais que se enfrentaram no final de semana. Mas logo me canso do assunto e me afasto. Ou me desligo.

Mas copa é copa, e eu já escalei minhas roupas estampadas com a bandeira do Brasil. Já garanti meu lugar no ataque, em frente a qualquer televisão que esteja transmitindo os jogos da seleção brasileira. E em último caso, tenho no meu banco de reservas um radinho à pilha, para não perder mesmo nenhum detalhe.

Me acostumei a torcer pelo Brasil vendo, desde criança, meu pai torcer nos jogos. Eu que não entendia quase nada de nada, sempre esperava o primeiro toque na bola para perguntar: “para que lado o Brasil faz gol?”. E ao responder, papai complementava, mesmo que ainda aos dois minutos do primeiro tempo: “tá na hora de sair um golzinho”.

Este ano torcerei de uma forma mais cautelosa, contudo. Não apenas por estar mais velha a cada copa, mas principalmente porque venho treinando meus olhos, aguçando meus sentidos, aprimorando meu senso crítico. Minha meta é que a cada concentração, eu consiga ficar mais e mais sensível às coisas do mundo. Ganho o campeonato se conseguir, de fato, absorver cada detalhe, cada particularidade.

Ainda nem começou o primeiro jogo. Ouço um ruído. Quase um grito. Não são trombetas, vuvuzelas ou apitos. São gritos, berros, gemidos de lamentação. E parece que, justamente por estarmos no clima de festa, esse som é inaudível para muitos.

O barulho começou há bastante tempo, e vai aumentando o volume segundo após segundo. E junto com o ruído, que é quase um choro inconsolável, lamurioso, audível apenas para os que se importam, acompanho as transformações nada sutis que vêm acontecendo. Só não vê quem realmente optou por fechar os olhos.

Falou-se muito que a bola que será usada nos jogos é lisa demais, redonda demais(!), ruim demais. E nisso parece que deixaram de lado outra bola, bem mais importante que a escolhida para os jogos.

A terra é redonda. E está bastante irritada.

Observo os desastres naturais ocorridos neste ano de copa. Falaram em Ganso, em Pato... e em muitos momentos olhei para os lados para verificar se estavam acompanhando também a rude transformação no habitat natural de bichos que têm o mesmo nome.

Terremotos, maremotos, tempestades, vulcões. Desastres naturais. Como se a terra, cansada de pessoas que desperdiçam energia com coisas inúteis, mostrasse que ela também está viva. E não está em clima de festa.

Exatamente por isso que nosso planeta grita. Nosso planeta demonstra toda a sua irritação. É acabar um terremoto aqui para começar outro ali. As chuvas param no sul e começam no norte. O vulcão da Europa sossega e outro na América do Sul inicia suas cuspidas raivosas.

Estarrecida, observo que mesmo com as manifestações mortais da terra, o homem continua desrespeitando nosso planeta. Mantém-se convicto na tarefa de destruí-lo. De destruir nossas vidas.

Pergunto-me se meus netos se banharão nas praias. Meu coração se contrai de dor quando constato que o petróleo continua vazando no Golfo do México. E mesmo irônico, não vejo graça no fato de que esse acidente tenha acontecido justamente nos Estados Unidos, país famoso por iniciar e patrocinar guerras por causa do petróleo.

O ano é de copa e sinto que esta será a última copa que teremos sem limitações. Sabe Deus se os aviões conseguirão ir para cá e para lá na próxima edição desse encontro mundial de jogadores de futebol. Sabe Deus se os vulcões permitirão que seja livre o tráfego aéreo. Sabe Deus se estaremos vivos para contar essa história.

Se a torcida é pelo hexa, engrosso o coro e me arrepiarei a cada vez que tocar nosso hino nacional. E hasteando a bandeira do meu país, desejo que esteja breve o dia em que nações se unirão por algo maior que o futebol.

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