O menino e o tênis
Quando ele ganhou aquele par de tênis até chorou. Era seu desejo contido, secreto, mais que um objeto de consumo, era quase um sonho, apesar de nunca ter contado para ninguém. Até aquele dia, só andara pelas estradas da fazenda com o velho chinelo de dedo que a irmã deixara para ele ou então descalço mesmo. Os visitantes da cidade até estranhavam ele não sentir dor ao pisar em pedras, chão quente ou em espinhos escondidos na grama. “A gente acostuma com a dor”, eles pensavam.
Mas agora seria diferente, seria um mundo novo, ele tinha um par de tênis. Era um par já usado, ele sabia, mas não fazia diferença, ainda assim era um tênis. O seu tênis.
- É meu e de mais ninguém — dizia em cima da grande seringueira, com uma toalha enxadreizada que roubara do varal da mãe. A disposição que sentia era de fazer inveja ao Super-Homem.
Ele vivia com o tênis. Era o tênis a sua vida agora. Se sujava, ele limpava; se molhava, ele secava; se fedia, ele perfumava. Quando sua mãe saía do quarto depois terem rezado juntos a Ave-Maria, ele calçava o tênis e dormia junto do seu parceiro. Sabia que se a Dona Amélia o visse dormindo assim logo proibiria. Era muito conservadora quanto a esses modernismos.
O tempo passou, como sempre passa. Demorou um pouco, mas sua mãe percebeu o quão vermelhos estavam os dedos do seu pé. Era o tênis que estava apertado há meses.
- Você vai ter que passar pra frente.
Seria mais gostoso morrer! As pessoas não entendiam, e para ele isso era tão óbvio: ele e aquele tênis eram uma só carne, uma só personalidade, amigos para sempre, mais que Erasmo e Roberto, pão e manteiga, Batman e Robin. Era mais fácil viver sem o sol, sem a água e sem escalar a velha seringueira do que ficar longe daquele belo par de tênis, seu primeiro e mais verdadeiro amigo.
Aceitou usar outros sapatos, uns mais sociais (como aquele de cravinho que nossa mãe nos obrigava a usar), outros menos formais (como aquelas sandálias coloridas que nossos avós nos davam no Natal), mas nunca mais vestiu outro tênis. E nunca jogou fora o velho par de tênis.
- Você vai estar comigo para sempre.
E esteve mesmo. Quando o pequeno Ed virou Edgard Luis e foi pra faculdade, o tênis ia dentro de sua mochila. Era o único universitário de mochila e o único ser humano com um par de tênis velhos dentro dela. Quando se formou, levou o tênis em sua formatura e na viagem que a turma fez.
Foi assim, também, quando perdeu o emprego, mudou de casa, de cidade, de Estado. Assim também quando ganhou uma bolsa para continuar os estudos em Portugal e o tênis estava com ele quando voltou para sua cidade natal, no interior do Brasil.
- Voltei porque sempre te amei, Carlinha.
Edgard e Carlinha se casaram há dez dias e há nove eles descaram. É que na lua-de-mel ela encontrou na mala dele um pequeno par de tênis velho e abarrotado, todo descolorido pelo tempo e cheirando a pano de chão molhado.
- Que é isso Ed?
Ele explicou. Ela não deu mole: ou ela, ou o tênis. Depois descasaram. Não porque ele tenha escolhido o tênis, não era doido de trocar um mulherão daquele por um tênis, ele gostava muito daquele tênis, só que amava mais a Carlinha, mulher que procurara nas européias e não encontrara.
- Eu jogo esse tênis fora por você, meu amor. Desde que você jogue aquela boneca velha que está na sua mala.
Não deu certo. Nunca daria. Descasaram e agora estão procurando novos amores: ela quer alguém que aceite sua velha Emengarda e ele procura uma mulher que goste de um bom e velho tênis.