O lixo e o luxo
A primeira vez que se expôs aos olhos da nação o assunto lixo relacionado a luxo, o Brasil estava em pleno carnaval e Joãozinho Trinta, gênio das transgressões e da polêmica expressados em desfiles de carnaval, levou para a Beija-Flor na Marquês de Sapucaí, uma multidão pessoas caracterizadas como mendigos, ao mesmo tempo que mostrava todo o luxo que essas pessoas ambicionam e podiam conquistar.
Além da polêmica, Joãozinho colocou em evidência a sábia quebra de um paradigma que faz crer que pessoas economicamente desfavorecidas gostam de pobreza, produtos mal-acabados e de má qualidade.
Em reportagem do Estado de São Paulo, de 14 de fevereiro de 2006 no caderno Negócios, está descrito, entre outros fatores, o crescente interesse de algumas empresas de pesquisa sobre as camadas menos favorecidas da sociedade, porque estas têm se apresentado como consumidores vorazes e, acompanhando as tendências, linhas inteiras de produtos passaram a ser produzidas para atender esse segmento.
O Marketing, embora trate de questões humanas, é uma ciência que tem como base a interpretação de resultados para a tomada de decisões e a construção de planejamentos sólidos.
Em face ao aumento significativo do consumo e apurando-se a maior penetração de mercado da classe C, muitos empreendedores passaram utilizar suas instalações ou mesmo criar empresas e trabalhar em um cenário de adversidades que se transformou em desenvolvimento e crescimento de mercado. É a essência da teoria do marketing materializando-se através das empresas brasileiras, a saber:
- diferenciação de preço;
- pontos-de-venda estratégicos;
- estratégias promocionais para inserção de novas linhas e
- público-alvo segmentado pelo poder de compra das classes menos favorecidas.
Sabe-se que alguns incentivos governamentais transformaram o poder de compra da população.
Em recentes pesquisas foi possível identificar que uma parcela significativa dos mantenedores das famílias da classe C são os aposentados e pensionistas. A liberação de empréstimos a esta camada de consumidores anteriormente debilitados, revelou-se como poderosa ferramenta para o aumento da renda per capta nacional e impulsionaram os índices de qualidade de vida as vendas no comércio; números muito interessantes em ano eleitoral.
A avaliação demográfica utilizada atualmente e que determina a camada social em que a população se enquadra, assim como grande parte dos processos de aferição de dados sociais hoje utilizados, necessita passar por uma revisão processual, por estar desatualizada e assim gerar informações distorcidas (como a presença de mais de um aparelho de televisão por domicílio), porém é inegável o achatamento da classe B na pirâmide social e este fator é vivenciado por cada cidadão que sente um declínio de sua qualidade de vida nos últimos dez ou quinze anos.
Independente de uma classificação correta ou desatualizada das classes sociais, o salário mínimo que há quatro anos valia duzentos reais, foi reajustado para trezentos e cinqüenta reais, ainda insuficientes frente a real necessidade do trabalhador, mas que conferiram maior poder de compra aos brasileiros, mesmo que esse poder, como bem dizem os economistas seja ilusório, pois trata-se de adequação do poder de compra frente à crescente inflação do período. Aliado a este fator, o maior acesso às informações e a globalização de mercados, apresentou produtos modernos, design avançado e tendências de consumismo a um Brasil com perfil de compra agora mais exigente e melhor qualificado (embora sem dinheiro suficiente para o consumo).
Para resolver a questão, os meios de pagamento oferecidos as camadas mais humildes da população também foram adaptados, pois as financeiras identificaram maiores possibilidades de rentabilidade a curto prazo, uma vez que a necessidade de consumo é imediata.
Por tantos fatores elencados e que partiram de uma simples análise de um desfile de carnaval na década de noventa, pode-se entender que o Brasil exigente e consumista está batendo às portas dos pequenos empresários, que segundo estatísticas do SEBRAE, compõem noventa por cento de todas as empresas legalmente constituídas. Muitos deles já estão colhendo os frutos de um trabalho diferenciado e competente; atendendo com qualidade e eficiência o mercado cada vez mais exigente, rentável e emergente, a classe C.