Publicado: Sexta-feira, 27 de março de 2009
O homem público
Estava sentado em frente a uma pilha de futuros arquivos, que era como ele chamava os que ainda estão por organizar. Passava os dias assim, na organização de documentos, papéis velhos e novos, pacotes que precisavam ser abertos antes de serem definitivamente fechados. Tudo mudou quando aquela funcionária do andar superior entrou com um pedaço de jornal nas mãos.
“Hei, garotão, arquiva isso pra mim na pasta Sete, Seção Novecentos. Brigada. Bonita camisa!”
Era uma matéria sobre trânsito. E tinha uma foto junto do texto. Ele já ia guardar o documento quando viu algo exótico na imagem: ele estava lá, entre umas poucas dezenas de pessoas e muitos carros. Andava na calçada segurando uma bolsa ao lado do corpo, ia sossegado rumo a lugar nenhum.
Ele riu.
Antes de chegar em casa, comprou um exemplar do tal jornal. Ia mostrar para seus netos um dia, caso chegasse à idade de ter netos e se antes pudesse ter filhos, caso tivesse a sorte de achar uma esposa fértil. Tinha vinte e nove anos, era um cara tímido e se manetinha solteiro de nascença. Não teria netos, ele sabia disso. Mas guardou o jornal mesmo assim.
Em casa, ou melhor, no apartamento velho da Augusta, guardou a folha do jornal entre uns livros de arqueologia. Achou muito apropriado, aliás. E dormiu sorrindo da coincidência.
“Uma na vida, outra na morte”.
Quando acordou, estava adiantado. Poderia dormir mais uma hora antes do banho e da caminhada até o trabalho, mas gostava de se programar. Era um homem antecipado.
Passou pela banquinha como de costume e, na foto estampada na capa (outra matéria sobre transporte público), lá estava ele outra vez pequenino, mas presente.
Ele riu, mas desta vez, menos intensamente.
Nos dias seguintes, a publicação se sucedeu. Sempre no mesmo jornal, destes de circulação nacional. Na sexta, quando não saiu uma foto dele, comprou outro jornal e viu, estava lá, semiescondido atrás do banco da praça. Fora fotografado na hora do almoço enquanto apreciava um magro cachorro-quente que, mesmo tendo um salário que podia chegar a dez mil reais, era a única refeição que lhe apreciava na época. Nas novas semanas, aquilo ficava cada vez mais estranho, estava sempre em algum dos jornais. Não havia dúvida alguma, era ele. Magro, alto, cabelos com gel.
Seu quarto se parecia com a sala das promessas da basílica de Aparecida do Norte. Tinha recortes dos jornais, revistas, notícias de sites que ele imprimiu. Estava na arquibancada do jogão de domingo, atrás de um político na coluna social, passeava atrás do corpo do motoboy na coluna policial. Saíra em grandes mídias e nas pequenas. De alguma forma, ele atraíra a atenção de mais de setenta publicações nos últimos dois meses.
No começo, era engraçado, fazia piada de si mesmo. “Puta coincidência”, dizia, nervoso e sozinho, na sala, atrás da latinha de cerveja. Mas com o tempo achou que fosse perseguição, não queria mais aquilo. Era deus, era o diabo, era chato demais. Mas não podia fazer nada. Era tímido demais para reclamar. E como estava em locais públicos e as matérias não o associavam a nada nocivo, ficou quieto. Como todos ficam.
Até que um dia, a coisa parou. Não saiu no jornal, nem na revista, nenhum registrozinho três por quatro na coluna social. Passaram-se semanas, meses e ele envelheceu. Estava triste porque não era mais notado em nenhum lugar do mundo. Chegou a frequentar festas badaladas e até ficava perto de gente famosa. O máximo que conseguia era publicar um cotovelo, parte da orelha ou um pé que invadia a foto. Pensou em pagar, mas não seria a mesma coisa. De graça tinha mais graça.
Certa vez, quando o Tonny Cartnew, aquele ator famoso de Hollywood, visitou a cidade, ele chegou a abraçá-lo na hora das fotos, mas alguém da revista o apagou no computador. Depois disso, não saiu mais de casa, sentia-se cada vez mais desgraçado, um homem esquecido, um computador 486.
Até hoje, ele está por aí. Vaga lento, anda triste, come cachorro-quente frio e bebe chá das cinco às nove. Ninguém nota. Nem fotografa. Ele não desperta o menor dos interesses. Nem sequer de interesseiros. Ele espera apenas uma chance para se matar de vez, mas, no fundo, nem ele pensa em si. Às vezes esquece até o próprio nome, tem vontade de sumir, de derreter, de apenas voltar a ficar preso numa fotografia velha que alguém, um dia destes, arquiva sem notar.
[texto atualizado com observações de Márcia Monteiro, a quem agradeço pela atenção e comentários. E Thaís Queiroz. Alguém mais?]
[texto atualizado com observações de Márcia Monteiro, a quem agradeço pela atenção e comentários. E Thaís Queiroz. Alguém mais?]
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