O Enfermeiro
No dia 12 de novembro de 2005, chegou em Querengué um ilustre turista que, meio sem querer, virou morador. Junior, o Enfermeiro, como ficou conhecido, veio de Não-sei-de-onde para visitar a avó doente e, como o Hospital Nossa Senhora precisava urgentemente de um profissional na área, ele ficou. Bom para os querengüenses, melhor para os pacientes.
O tal novo enfermeiro se destacava pela alegria que trazia aos adoentados. Enquanto alguns profissionais tratam seus pacientes como clientes ou números, o enfermeiro Junior é daqueles atenciosos, segura a mão, pergunta se está tudo bem. - A senhora dormiu bem esta noite, Dona Maria?
- O senhor vai sair dessa, Seu Clóvis. Eu tenho certeza!
- Você também é palmeirense, Beto?! Como dizia meu pai: Palmeiras na alegria e na tristeza, na vitória e na derrota, na primeira e na segunda divisão.
Ocorre que, quando a situação está difícil e as pessoas estão sem esperanças, elas procuram alguém em quem se apoiar, um modelo, um pilar ou algo assim. Ainda mais na nossa sociedade carente de verdades absolutas, machucada pelo relativismo e atacada pela falta de fé, uma pessoa otimista se destaca e atrai amizades.
A pequena população de Querengué começou a exagerar na admiração que sentia pelo novo enfermeiro.
A Prefeita falou ao assessor:
- Vamos erguer uma estátua em frente à Matriz!
- Mas prefeita, ali já tem uma enorme em homenagem ao presidente da República.
- Já está na hora de trocar, meu caro.
A Professora falou aos alunos:
- O Junior tem trinta anos e há vários deles se dedica à área da saúde. Tudo começou em...
- Professora, a senhora já contou a história do enfermeiro três vezes nessa semana!
- Engraçado, achei que tinha contado quatro! Melhor, ainda. E lembrem-se crianças: uma história contada várias vezes fica mais legal!
O Mecânico falou para o próprio enfermeiro:
- O senhor não precisa pagar pelo serviço, enfermeiro Junior. Eu nem ia usar esse pneu mesmo!
Até os candidatos políticos discursaram:
- Porque eu, se eu for mesmo eleito, prometo atrair à nossa cidade pessoas como esse jovem enfermeiro. É com pessoas assim que construiremos uma sociedade mais justa e não-sei-mais-o-que-lá...
Quando o Junior saía de casa para ir ao hospital as pessoas estavam esperando à porta, alguns queriam tocar na roupa dele. - Dizem que ele faz milagres!
As mocinhas se aproximavam para tirar foto com ele, os da Melhor Idade queriam apertar-lhe as mãos e convidar para uma partida de xadrez, as da Melhor Idade levavam bolos, tortas e pães-de-queijo.
- Essa receita é da minha falecida avó, que foi amante de um presidente.
Aos poucos, Junior foi ficando com medo daquela fama. Quando o povo soube que ele ficar dois dias de folga, algumas pessoas fizeram uma pequena “reunião” em frente à casa dele.
- Como pode o enfermeiro tirar férias?! Quem vai nos dar injeção, visitar o nosso leito, assoprar a nossa comida e trocar a nossa fralda?
Alguns jovens picharam no muro da casa dele: “Vai trabalhar enfermeiro, o povo precisa de você!”.
Na noite seguinte o enfermeiro Junior voltou a ser turista. Saiu no último ônibus de Querengué e voltou para Não-seio-onde, sua cidade natal.
Ele ia triste, mas tentava se conformar. Afinal, nossa sociedade é assim mesmo: ela transforma pessoas comuns em mitos e depois se dá ao trabalho de transformar o mito em pessoas comuns. Fazer o quê, né?