O Coração dos Homens
Os filósofos e os teólogos dizem que os homens nascem bons. A vida é que, depois, os vai corrompendo e levando para o mal. Eu não sou filósofo, nem PhD em nada, mas me atrevo a discordar: a gente nasce ruim e só à força de muito ensino, e às vezes de alguma palmadinha materna até à paulada dos inimigos é que melhora. Ou assume e finge que melhora.
Pergunta: Haverá monstrinho mais exigente, egoísta, genioso, do que um recém-nascido? E a medida que cresce, não melhora nada, só piora.
Uma antiga amiga, educadora infantil me relatou a seguinte cena, ocorrida há aproximadamente 18 anos: uma menininha linda, risonha, aparentemente uma anjo. No primeiro dia de trabalho na unidade, a uma hora qualquer e imprevisível, ela saltou da cadeira e fez suas necessidades fisiológicas em plena sala de aula, entre as mesas. Minha amiga, educadora, correu acudir, limpou o local, pregou um sermão, e quando indagou o porquê daquilo, a “coisinha ruim” levantou aqueles olhos imensos e lindos e confessou: “Eu fiz porque eu gosto de ver você brava...”. A educadora deixou-se levar pelo ímpeto menos pedagógico do mundo, e deu, na ainda descoberta bundinha, uma palmada vigorosa. A pecadora levantou-se, subiu a calcinha, voltou ao seu lugar e de lá disse: “Meu pai bate que dói mais”. A professora levantou as mãos aos céus e disse: “Meu Deus! Essa criança é um caso típico de masoquismo.” Mas um menino, lá de trás, saiu em defesa da colega: “Se a tia diz nome feio pra gente, minha mãe não vai gostar!”
Acham que a estória é exagerada? Pois vejam como as crianças tratam um colega fanhoso, ou estrábico, ou ainda, gago. Até de manco elas não tem dó. Só se comovem um pouco quando veem sangue, mas aí acho que é só medo. Sangue faz medo. Na história do lobo mau, nunca vi nenhuma criança ter pena da vovozinha. Rolam de rir quando a gente imita a voz do lobo.
Piedade, bondade, caridade é coisa que se incute só com muito esforço e persistência. Típico de criança é aquele caso (verídico ou lenda) da mãe que levou o filho de 5 anos para ver um filme onde os cristão eram estraçalhados por leões: “Coitadinho daquele leão! Não sobrou nem um cristão para ele!”
E, à custa de muito apanhar da vida, de procurar entender, ou saber direito a dureza do mundo, é que a gente vai cultivando a caridade, piedade, um pouco de justiça. Até com relação a religião, em vez de a gente aprender a praticar os mandamentos de quaisquer delas, o que se faz é correr atrás dos rivais de outras crenças.
Isolá-los, expulsá-los, maldizê-los, e até os matar, pelo ferro e pelo fogo. Como se Deus nos tivesse ensinado essas coisas. E não se deu apenas nos tempos da velha antiguidade, quando os generais bíblicos, vencedores, mandavam tranquilamente passar a “fio da espada” os infiéis. Mas isso se dava só nos tempos antigos? E agora, o que acontece no Oriente Médio? Na Irlanda? Os conflitos entre cristãos e muçulmanos? A gente até fecha os olhos quando passam cenas de guerra na TV, só para se livrar de ver as atrocidades.
Caridade – principalmente o básico. “Dar de comer a quem tem fome”. É o socorro mais elementar, o mais imperioso, o que deveria falar mais direto aos nossos corações. Mas qual a senhora piedosa, o cavalheiro de boa vontade que é capaz de pegar, no restaurante, o seu prato suculento, e levá-lo para a mulher sentada no meio-fio, com três filhos ao redor, pedindo esmola, pelo amor de Deus? Até pareceria mal. Exibição!
Falar, se fala muito. Escrevem-se livros, exigindo igualdade para todos, oportunidades reais para todos. Está aí o Marx. Escreveu “O Capital”, pregou. Em consequência fez-se a Revolução Russa. E deu no que deu. E nem quero falar na fauna vil de nazista e correlatos.
Falo nos homens de boa vontade. Nós, eu, todo mundo; falo nos políticos que aumentam seus salários nas câmaras e negam algumas verbas para algo que iria beneficiar milhares de pessoas. Alegam que não há verbas!
Somos todos maus, só que em graus diferentes, felizmente. Sempre há os menos maus, e esses ajudam um pouco. Ah! Deus, Nosso Senhor que me perdoe!
Mas quando Ele criou o homem não caprichou muito no molde. Ou era essa a Sua intenção, para ver se, por mérito próprio, a gente melhorava.