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Publicado: Segunda-feira, 10 de abril de 2006

O cocozinho matinal da Sra. Jones

Da série “Meus queridos vizinhos”

Quando morávamos em Querengué, essa cidade maravilhosa que pouca gente conhece, uma família vinda dos Estados Unidos vivia numa casa colada na nossa. Como eu, a Sra. Jones acordava bem cedo, de madrugada para falar a verdade, antes mesmo que o galo cantasse ou o leiteiro passasse. Eu era menino ainda e achava o sotaque de todos eles (Sr. e Sra. Jones, Tedd, Kevin e Beth) tão bonito quanto engraçado.
A que eu mais gostava daquelas figuras era, sem dúvida, a Sr. Jones. Eu escutava enquanto ela cantava em inglês durante o banho, a via dançando debaixo do varal de roupas molhada e sentia seus pulos enquanto varria a casa ao som do Martinho da Vila.
- Adouro esse Martinho da Víla – dizia ela para minha mãe com aquele belo sotaque do qual eu me lembrei quando o U2 esteve no Brasil e Bono Vox, o vocalista, tentava dizer “obrigado” e “Brasília”.
Todos os meus colegas estavam apaixonados pela professora ou por alguma colega, mas eu gostava mesmo é de ficar olhando a Sra. Jones fumando sentada na janela. Embora continue odiando o cigarro com toda a potência da minha alma, não consigo esquecer o quanto aquela cena mexia comigo, cena que anos mais tarde me fez comparar a Sra. Jones com a Nicole Kidman em “As Horas”.
Foi, inclusive, a minha paixãozinha pela Sra. Jones que me fez pensar em ser psicólogo. Ela, como todo bom brasileiro ou estrangeiro que aqui vem morar, gostava de soltar seus restos orgânicos pela manhã, ou, num português sem pudorismos, fazia um calmo cocozinho assim que acordava. Como a janela de nossos banheiros ficavam próximas, eu escutava tudo o que acontecia naquele cubículo, especialmente quando era ela quem estava ali dentro. No começo não tinha a intenção de ficar ouvindo, mas com o tempo fiquei viciado em ouvir a Sra. Jones no banheiro. Especialmente depois de um dia que ela desabafou: - Até quando, oh my Lord, até quando? Seria melhor morrer do que viver assim...
Eu não agüentei, me aproximei da janelinha e sussurrei:
- Por favor, Sra. Jones, não diga isso.
- Quem estar aí?
- Sou eu, seu vizinho, o filho da sua vizinha. Eu ouvi sem querer que a senhora...
- Oh, little boy, você não saber como eu estar vivendo.
E ela chorava. Coitada da Sra. Jones, daquele dia em diante percebi que ela demorava tanto no banheiro porque a família dela não vivia em paz. Em outras palavras, desde que acordava até o momento do cocozinho matinal ela era feliz, depois, só tristeza. A Beth, sua filha, estava grávida sem estar casada, o Kevin estava se drogando, o Tedd estava mal na escola e o Sr. Jones ninguém nunca sabia onde estava. Eu, como menino bom que era naquela época, aconselhei a Sra. Jones a procurar alguém mais adulto para conversar, mas o que se seguiu foi que, todas as manhãs ela vinha até a janela conversar comigo sobre seus problemas. E eu ouvia tudo calado e depois incentivava a gringa a procurar um adulto especializado para conversar.
- Good Morning.
Tínhamos essa conversa matinal e, quando faltava assunto, eu contava algumas piadas para ela, o que aparentemente fazia-lhe bem à alma, pois no dia seguinte lá estava ela contando sua vida para um menino com pouco mais de doze anos.
Meses depois eles foram embora, cansaram de esperar o Sr. Jones aparecer e voltaram para os States. Não sinto saudades, apenas não consigo esquecer a cena dela fumando na muretinha da varanda. Gostaria de me encontrar com ela para dizer o quão interessante foi ter uma companheira de evacuação matinal. Sra. Jones, thank you!

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