O chamado da rainha e a chave freudiana
No seminário as formações do inconsciente, Jacques Lacan dizia que “o amor autêntico é cômico.” As parcerias amorosas não seriam tão cômicas se também não fossem correlativamente trágicas. A comédia e a tragédia têm a mesma origem: as festas dedicadas ao deus Dioniso, na Grécia Antiga.
Na tragédia, o destino do herói é irrefutável – destinava-se à Édipo, por exemplo, assassinar seu pai e casar-se com sua mãe. Na antiguidade, a tragédia era relacionada ao falo, escrevendo-o como exceção. A comédia, por sua vez, emanou de cerimônias denominadas por Aristóteles de procissões phalliká, uma alusão à idéia de reprodução, originada em cortejos, onde a representação de um enorme órgão sexual masculino era exibida publicamente.
Comédia e tragédia diferiam na maneira de tratar o real e apresentavam-se nas narrativas de que Freud muito se serviu – os mitos, considerando-os indispensáveis para a concepção das neuroses e exercendo influência sobre a estrutura dos sintomas. A proximidade entre o mito e a neurose são tão notáveis que Lacan vai correlacionar a idéia de “mito individual”, em Lévi-Strauss, à estrutura neurótica, na forma da organização do mito individual do neurótico, em 1952.
É no contrato arriscado das parcerias amorosas que reside tanto a possibilidade de sua graça, quanto de sua desgraça. A dimensão mítica, na comédia e na tragédia do parceiro é legitimada na clínica freudiana e levada para o primeiro plano, para inventar-se como um dispositivo discursivo. O termo que deriva do grego Mythós alude à idéia de mensagem e de discurso. É nesta noção que a clínica freudiana, desde o início, lança mão de um privilégio à palavra.
Em carta endereçada ao filósofo René Descartes, nos meados de maio de 1647, a mensagem de Cristina, a rainha da Suécia, remetida com o pedido de tornar-se uma aluna do filósofo francês, mais conhecido por fundar a filosofia moderna, supunha um saber e endereçava uma questão sobre o real do parceiro – “qual é a impulsão secreta que nos conduz mais a uma pessoa que a outra, antes mesmo de conhecer seu mérito?” Em outros termos: o que conduz o ser humano na parceria amorosa? Como a psicanálise pode responder à pergunta da Rainha Cristina?
Para respondê-la, é preciso uma leitura do mundo. Para a psicanálise, o que decorre de uma interpretação do mundo é o sintoma. Freud percebe que o inconsciente oferecia uma interpretação primeira do mundo. Para ele e para Lacan, o inconsciente já é um intérprete, nesta leitura. Essa noção está presente nas próprias recomendações técnicas que Freud fazia aos médicos e analistas de sua época, como em sua Conferência XVIII, onde diz que os comunicados ou a transmissão de conhecimento feita pelo analista ao analisante, nada produzirá. Há uma conhecida passagem no Caso Schreber em que Freud orienta aos analistas a não oferecer ao analisando a solução de um sintoma ou a tradução de um desejo, até que este sujeito esteja tão próximo destas, que seja necessário dar apenas mais um passo para conseguir a explicação por si só. Portanto, algo sabe, mas, não quer saber.
Qual, então, seria a chave freudiana para este saber? Qual seria o “software” que permitiria uma interpretação? Para as produções do inconsciente (os sintomas, sonhos, atos falhos, chistes e lapsos), é a chave fálica a promover esta leitura de mundo, na expressão de duas de suas invenções – o Complexo de Castração e o Complexo de Édipo, extraído da tragédia de Sófocles – Édipo Rei.
Em 1923, no texto sobre A Organização Genital Infantil, Freud vai dar destaque a este termo, derivado do latim – Phallus, para promover uma clivagem entre a diferenciação psíquica e anatômica dos sexos. Embora Freud utilize o termo “pênis” durante praticamente toda sua obra, este já não se escrevia num sentido anatômico, há muito tempo. Elevado à categoria de significante, é neste texto que o termo “falo” é utilizado pela primeira vez na teoria psicanalítica e o complexo de castração é tomado como consequência da distinção anatômica em sua dimensão mítica, portanto, simbólica.
Lacan, em seu seminário intitulado a angústia, sublinhando o fato de que o inconsciente não conhece a diferença dos sexos, refere-se à criança que chega ao mundo como “uma libra de carne”. A criança, ao interpretar o mundo, somente o fará a partir de acontecimentos muito específicos e singulares, uma contagem de um sujeito-ao-sexo.
A interpretação que faz o sujeito do mundo, portanto, pode responder à pergunta sobre a condução ao parceiro, para a qual é necessário considerar a interpretação do sintoma. A sustentação do sintoma decorre desta leitura, à partir de uma contagem: contar-se como menino ou menina, como homem ou mulher. Esta contagem, na entrada, é consequência do que Freud chamou de “teorias sexuais infantis” e das crenças sobre a distinção anatômica, na “ficção da universalidade do pênis”, ocorrendo na “fase fálica do desenvolvimento da libido”. Na saída, o resultado é uma “formação de compromisso”– um dos nomes freudianos do sintoma.
Portanto, o que destaca Freud, no texto de 1923, é o fato de que a libido se organiza na “primazia fálica”, ou seja, a circunscrição do advento do sujeito no campo do desejo é a organização, cuja dialética é introduzida pelo falo, no inconsciente. É o falo à possibilitar uma interpretação subjetiva do mundo, pois, trata-se de uma interpretação à partir da distribuição de seres humanos na sexualidade.
No entanto, Freud observa em vários momentos que as produções do inconsciente contêm um núcleo resistente à interpretação e alguns pontos restaram inconclusos, em sua obra. Em 1937, no texto Análise Terminável e Interminável, Freud questiona as finalidades de uma análise. Cinco importantes pontos decorrem do que Freud conclui, neste artigo: 1. Por melhor e mais ampla a condução da interpretação que alguém possa fazer do mundo, sempre haverá um ponto de resistência – a angústia de castração (no menino) e o Penisneid ou inveja do pênis (na menina). 2. A psicanálise termina ao alcançar seu fundo no “rochedo da castração”. Pode ser entendido como “limite” ou como “impossível de ser traduzido”, equivalendo a outros termos que são apresentados ao longo de sua obra, como: “o ponto nodal”, “o núcleo patogênico”, “o umbigo do sonho”, “o ponto de fixação”, “a fixação libidinal” e “a resistência terapêutica negativa” – termos que, já na prática freudiana, definem o Real como impossível. 3. Trata-se de um impasse que se refere ao que Freud chama de “enigma dos sexos”. Neste trabalho, Freud vai dizer que, no futuro, talvez o campo da biologia possa avançar frente ao “inexplicável da sexualidade”. 4. Desta maneira, sempre restará um ponto vazio em uma análise, isto é, os esforços de uma análise, ao encontrarem seu fim neste ponto, mesmo na remoção do sintoma (ou a mudança de atitude do analisando), não colocam um ponto final no processo elucidativo ou interpretativo. 5. Então, uma análise pode ser terminável na remoção/transformação do sintoma e interminável, na interpretação.
Para concluir, que resposta poderia a Rainha Cristina extrair de uma análise, levada à bom termo, com Sigmund Freud? Em 1931, no artigo Sexualidade Feminina, Freud vai dizer que através da psicanálise não é possível dizer o que é um homem ou o que é uma mulher, mas, pode dizer alguma coisa sobre sua contagem, isto é, sobre o posicionamento do sujeito quanto à divisão dos sexos. Em outras palavras, à partir de um saber não-sabido, uma interpretação possibilitaria localizar a posição de um sujeito em determinada organização sexual e, assim, sua condução ao parceiro. A elaboração que significaria um “impulso secreto”, velado por um recalque, tem como chave, neste momento da teoria, o primeiro parceiro em uma longa série, na psicanálise - o falo.