O Casal
O casal no restaurante.
- Ai, olha isso, tem um cabelo na minha mesa!
- Como você sabe que é um cabelo e não um pêlo?
- Ora, não sei. Mas para mim parece um cabelo.
- Descreva-o.
- Mede uns 7 centímetros, é reto, com uma parte ligeiramente branca...
- É, é um cabelo.
- Com esse tamanho, só podia ser um cabelo!
- Quem disse?! Minha tia um dia achou um pêlo no sovaco com 11 centímetros!
- Tá, mas pêlos são todos tortos, esse fio aqui é lisinho, retinho, chega até a ser engraçadinho.
- Outra mentira: minha avó tinha os pêlos da perna mais retos e lisos que os da cabeça. Todo dia antes de deitar ela passava gel fixador e dormia de meia-calça. Eu me lembro que quando eu e meus primos éramos pequenos a gente ficava fazendo penteado na perna dela enquanto ela dormia. Eu sempre fazia o Elvis e a minha irmã gostava de fazer o Zacarias.
- Não sei porque, mas perdi o apetite com toda essa conversa.
- Vamos pegar um cachorro-quente e comer lá na praça.
O casal comendo cachorro-quente lá na praça.
- Rodolfo, você sabe como se faz a salsicha?
- Não.
- Claro que sabe, você trabalhou em um restaurante durante anos.
- Devo até saber, mas não me lembro.
-Ah, conta. Por favor, eu prometo que não vou sentir nojo.
- Clara, eu te conheço, você vai sentir nojo.
- É de carne de cavalo?
- Não.
- Não vai me dizer que é de cachorro ou de gato?
- Não.
- Se você não sabe...
- Saber eu até sei...
- Então conta, Rô!
- Tudo bem. É uma mistura de várias carnes, porco, boi...
- Chega. Não precisa falar mais nada. Quer o meu lanche?
- Eu não falei, Clara? Eu não falei?
- Vamos embora, quero comer um miojo.
O casal, diante da panela que fervia a água do miojo.
- Rô, não foi você quem visitou uma fábrica de miojo?
- ...
- Ai, fica quieto, é melhor você não dizer nada, se não eu morro de fome.