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Publicado: Segunda-feira, 19 de junho de 2006

O Bêbado e o Gato

Itu, uma madrugada qualquer. Depois da festa, minha carona pára a um quilometro da minha casa, tenho de terminar o caminho a pé. Itu, de madrugada, tem seu charme, mas pouca gente sabe disso. Eu mesmo não sabia. Caminho bêbado, no sangue segue vinho misturado com cerveja e caipirinha de vodka. Mal sinto minhas pernas, mas não me permito parar, pois se encostar em algo, durmo.

De repente, avisto um gato branco sentado na calçada, rei da madrugada. Os pêlos brancos e os olhos claros chamariam a tenção de qualquer um, se tivesse “qualquer um” por perto. Eu, bêbado, resolvo falar “oi” para o bichano.

“Oi”, responde ele.

“Posso me sentar?” Ele encolhe a cabeça, tanto fez, tanto faz. Ele diz que se chama Gato.

Ficamos ali na calçada a conversar durante quase meia hora. Ele me fala sobre Deus, sobre a vida, sobre a Física Quântica e sobre como os gatos poderiam se relacionar bem com os cachorros e ratos, se assim quisessem de verdade.

“Posso passar a mão no seu pêlo?.”

“Essas coisas não se pede, apenas se faz.”

Faço um carinho no bichano e ele não consegue esconder que gosta. Ele se aproxima.

“Vamos, vou te levar pra minha casa. Lá tem um tapete novo onde você pode dormir. Amanhã compraremos atum e outras coisas para você.”

Ele se afasta.

“Não posso, sou rei aqui, dono desta rua. O máximo que posso fazer é te acompanhar até perto de sua casa.”

Então seguimos silenciosamente pelo caminho. De vez em quando o Gato rompe o silêncio citando Shakespeare, Camões ou mesmo um poema de sua autoria. E eu gosto disso.

“Espero te ver outra vez.”

“Eu sempre estou pela madrugada. Mas para me achar você precisa sair de sua casa confortável. Lembre-se que o mundo sempre guarda muito mais descobertas do que imaginamos.”

Eu, triste pela despedida, me ajoelho e faço outro carinho na cabeça dele. Ele explica:

“Talvez as pessoas descubram que o carinho é uma arma poderosa, você, pelo menos, já descobriu. Mas agora é melhor que você vá. Daqui a pouco aparece o sol e com ele os preconceituosos. Não entenderiam se nos vissem conversando, nem se quer ouviriam a minha voz. Tu mesmo, Felipe, amanhã acordará e imaginará que isto foi só um sonho e vai estranhar quando encontrar na rua, em pleno dia, um bêbado conversando com cachorros, gatos ou pessoas invisíveis.”

Eu, com os olhos cheios de lágrima, não quero voltar ao preconceito.

“Prefiro, então, continuar bêbado. Quero perder o medo de conhecer coisas novas, amigo Gato, me ajuda a continuar bêbado para sempre”.

“O que eu podia fazer, eu já fiz. Dessa esquina em diante você precisa ir sozinho, pois aqui não reino. Anda, menino, levanta e continua sua vida. Se passar por aqui outra vez, pare na calçada para conversarmos um pouco mais.”

Saio cambaleando pra casa sem olhar para trás. A certeza de que ele está me olhando me incentiva a continuar. Algumas luzes já se ascendem e passam por mim duas senhoras que vão à igreja. Elas balançam a cabeça, “jovem bêbado”, mas isso não me magoa. Provavelmente, eu faria o mesmo no lugar delas se não tivesse conhecido o Gato.

Quando chego em casa, tomo banho e durmo no tapete onde o Gato estaria, se ele não fosse rei em outro lugar.

Esse foi um sonho que tive nessa noite. Ou não.

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