O Bêbado de Querengué
Ei, olha lá na esquina!
Lá vem o bêbado Gervásio!
Antes era só o Gervásio bêbado,
Agora já virou o bêbado Gervásio.
Ele mexe com o cachorro, cai no chão e abraça o banco.
Ele mexe com a freira, tropeça num carro e abraça o motorista.
Ele mexe com o poste, bate no poste, abraça o poste.
O açougueiro vê e fala:
- Coitado do Gervásio, tão bêbado assim, vai acabar morrendo!
A pipoqueira ouve, vê e fala:
- Coitada é da mulher dele, não merece passar essa vergonha!
O dono do bar ouve, vê, fala e sorri:
- Coitado nem de um, nem de outro. É com a alegria dele e com a tristeza dela que eu ganho a vida.
O Gervásio, agora conhecido como O Bêbado de Querengué, segue andando pela rua semi-escura, em busca de ajuda, de sua casa, de sobriedade.
Agora está dentro de um buraco, na rua.
Tudo começou com um jogo de buraco, no bar.
Outro dia mesmo ele cavava buraco, em mais um emprego perdido.
Emprego?!
- Minha mulher vai me matar!
O bêbado é um ser poucas certezas na vida.
- Essa mangüaça é que vai me matar!
O médico bem que avisou...
- Aquele carro vai me matar!
Mas o carro breca. É um fusca. É sua esposa.
- Gervásio! Entra aqui homem de Deus.
Ela carrega o marido para o carro, sob os olhares piedosos de quase todos no bairro (não esqueçamos do dono do bar). Gervásio se deita. No rádio, Caetano Veloso canta, ao vivo:
- Quando a gente gosta é claro que a gente cuida...Gervásio joga um beijo para a esposa antes de apagar no banco traseiro do carro. Ela chora, mas não desiste.