Novos amores
Eram ótimos melhores amigos. Amigos daqueles que eram irmãos e nada conseguia separar. Nem as fofocas maldosas de que ele era apaixonado por ela e ela por ele. Nem quando ela começou a namorar, os três saíam juntos para o cinema e as pessoas (maldosas como sempre) diziam que ele ia para vigiá-la (era bem verdade que recebia uns trocados do pai dela para fazer isso, mas ainda assim gostava de ir ao cinema em trio).
A relação se mantinha bem. Ele conversava sobre cinema latino-americano com ela; ela namorava o namorado e o namorado jogava playstation com ele. Não tinha porque dar errado. Mas um dia deu.
O errado começou quando começou a suspeitar de que o namorado a traía.
- O que faço?
E ele é quem deveria saber? Ora, que terminasse tudo.
- Mas não posso, não tenho certeza!
Então que tivesse, ora. E que não viesse pra cima dele com aquela suposição maluca.
- Já sei, vamos comigo espioná-lo.
Com tanta insistência, foi. Viram o namorado entrar na casa de um colega, esperaram mais de uma hora e quando o observado saiu de lá com cabelos molhados e roupa trocada, ele teve de alertar a amiga que a decepção dela seria maior, muito maior.
Foi assim que começaram a namorar. Só para atacar o ex-namorado dela.
- Você é meu amigo e só você pode me ajudar nisso.
O ex não ia voltar, ele gostava mesmo era de outra fruta. Aquele teatrinho seria inútil.
- Só por uns tempos. Eu prometo.
Tudo bem. Fingiram namoro.
Encontraram-se os quatro numa sexta à noite na porta do cinema. Nada muito por acaso, claro.
- Vocês estão juntos? – perguntou o ex a ela.
- Sim. E vocês?
- Nós?! Como assim? - é fácil fazer e difícil assumir. Compreendemos.
- Ué, eu perguntei se vocês vão ver esse filme também? Ou só estão na fila para saber onde vai dar?
O amigo apertou o braço da amiga-namorada-de-mentira. Que se acalmasse ou perderia a razão. Com raiva não se reconquista ninguém.
O ex respondeu:
- Vamos sim, querida.
Quando entraram na sala e foram obrigados a sentarem perto, pois o cinema estava lotado.
- Que coisa, não?
- Não ria, amigo, é até melhor assim, pois posso vejo o que eles fazem.
O filme era O Segredo de Brokeback Mountain. Quando os caubóis de beijam pela primeira (e mais violenta) vez, o ex abraçou o atual namorado e ela ficou espantada. Era como se dissessem “é o nosso filme, não é uma graça?”.
- Vamos embora, amigo!
Mas justo agora que o filme estava ficando interessante?
Ela olhou espantada para ele.
- Até tu, Brutus?!
Não era isso, era o filme... Ana... Ana... ela se fora. Bem, que mal tem em ver um filme bom? Ainda que ele conte a história de caubóis gays?
Hoje, pobrezinha, ela quer morrer quando vê os três rindo pelo mundo, felizes até não poderem mais. Antes não tivesse se apaixonado, seria bem melhor. Era o que ela pensava naquele momento, pelo menos.