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Publicado: Terça-feira, 21 de março de 2006

Mosaicos

Eu sou apaixonado por mosaicos. Na verdade eu sou viciado em mosaico. Se estou andando na rua e alguém fala: “olha um mosaico ali”, eu já estou lá babando. E não precisa ser um mosaico de vidro, porcelana ou papel. Existem diversas outras formas de mosaico e todas elas me atraem bastante. Isso porque no mosaico conseguimos ver que o todo é construído por partes e ninguém é mais importante que ninguém. O mosaico não exclui das diferenças, ele une os opostos e cria uma unidade plural, com um sentido maravilhoso.

Estive na 19ª Bienal do Livro, realizada no Anhembi, em São Paulo. Nem é preciso dizer que estava tudo muito belo, milhares de pessoas se interessando por livros, pesquisando, aprendendo e tudo o mais que só acontece numa Bienal Internacional do Livro. O que mais achei interessante na Bienal era o mosaico de editoras e expositores presentes. Eram 320 no total e tinha de todos os gostos, tamanhos, cores e sabores. Se você queria saber como agradar um homem na cama, lá tinha livro sobre isso. Se queria desagradar, tinha também. Se queria um livro sobre a beleza do casamento ou sobre a riqueza da solteirice, se queria um livro científico ou religioso, um livro de superstições ou um livro de medicina... enfim, uma avalanche de diferentes e antagônicos títulos. E era a junção de todo mundo que fazia a Bienal ser Bienal. Se faltasse alguém, com certeza, não teria sido a mesma coisa.

As músicas em mosaico também chamam muito minha atenção. Hoje é uma tendência fazer música dessa forma, justamente porque é preciso mais criatividade e conhecimento de mundo. Uma música como “Saiba” do Arnaldo Antunes gravada pela Adriana Partimpim (Calcanhotto, na verdade) é extremamente inteligente, apesar de parecer simples. Gosto particularmente do trecho “Saiba: todo mundo foi neném / Einstein, Freud e Platão também / Hitler, Bush e Sadam Hussein / Quem tem grana e quem não tem”. Que outro mosaico consegue reunir Bush, Hitler e Sadam Hussein de uma forma tão maravilhosa? Era para estar na cara (mas para mim não estava até essa música) que os três foram muito diferentes, mas foram tiranos cada um ao seu modo.

Outras músicas em mosaico são mais conhecidas. Eu gosto muito de “Eu tô tentando”, do Kid Abelha, “Pais e Filhos”, da Legião Urbana, “Águas de Março” de Tom Jobim, entre outras.

O cinema mosaico é surpreendente também. O filme mosaico mais recente é “Crash — No Limite”, que mostra várias situações de preconceito que se interligam. Mas meu preferido é “11:14”, onde vários acidentes e crimes acontecem exatamente às 22h14 (“11:14” é a fórmula estrangeira de escrever o horário). Outro filme mosaico, mas bem pouco conhecido, é “Edifício Máster”, do mestre do documentário Eduardo Coutinho. Nesse filme, Coutinho mostra a vida de várias pessoas diferentes que moram no mesmo prédio. Mais uma vez as partes são importantes porque juntas formam o todo.

E por aí vai. Cada forma de mosaico é interessante e merece a nossa atenção. Nesse final de semana foi inaugurado uma exposição mosaico que pretendo conhecer. Na verdade, é um museu que traz as várias mudanças do nosso idioma. O Museu da Língua Portuguesa fica na Estação da Luz em São Paulo até dezembro. Vale a pena conferir mais este mosaico.

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