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Publicado: Sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Minha Casa, Sua Vida

Crédito: Escultura de David Černý Minha Casa, Sua Vida
Protesto artístico em Praga

O jegue caminhava desfalecendo e sem mais nenhuma intimidade com as guias. O homem montado vinha embevecido pelos raios de sol fumegantes, o dialeto estranho das crianças correndo atrás dele, a paisagem e outras fugacidades. No solo, uma vala de homens com ternos e mulheres vestidas para baile o protegia das crianças. Alardeadas pelo banzé, as poucas pessoas do lugarejo se apinhavam nas janelas para vê-lo passar. Sua simpatia lhe redimia os braços defeituosos, cheios de cicatrizes. Sem esconder sua ânsia, vez ou outra balbuciava: "Obrigado, meu Deus". Apeou-se do animal, confiscado de um nativo, segurou as rédeas sem perícia e pediu ao seu imediato, em cochicho, que reunisse correligionários e bajuladores para o anúncio histórico. Depois de alguns minutos gesticulando como de costume, bradou: "Amanhã podem iniciar a terraplanagem". Os seus aplaudiram. O imediato colocou a pasta embaixo do braço e sorriu empolgado. O povo das janelas não entendeu. O jegue se assustou e mordeu seu braço.

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