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Publicado: Quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Miandês

Eu não vou muito com a cara de gatos. Na verdade, odeio gatos, só não aceito que maltratem os bichanos. Sou daqueles: se maltratar, então cozinha e come depois. Senãovai comer, deixa eles quietos. Mas, nesse final de semana, acho que a coisa piorou, a relação entre minha pessoa e a Gatolândia (o mundo obscuro de onde todos os gatos vêem e para onde todos vão) ficou insuportável, não posso nem mais ver o desenho do Gato Félix, nem Tom & Jerry, nem qualquer coisa que envolva gatos.

Foi mais ou menos assim. Eu tava sossegado, rezando, atento na Missa. A igreja estava cheia, era domingo, a única Missa daquela comunidade. Lá pelas idas da homilia (antigamente chamada de sermão) senti uma coisa peluda na minha perna e não quis olhar. Poderia ser um gremlin e eu não ia mais prestar atenção em nada se fosse um daqueles etezinhos que viravam monstros ao contato com água. Quando aquela coisa peluda começou a miar, me tranqüilizei, era um exemplar da Gatolândia. Pensei sozinho:
- Calma, Felipe, calma! Você não gosta de gatos, mas eles são inofensivos.
E como aquele gato miava. Meu Deus! Acho que ninguém mais prestou atenção em nada com aquela miação toda. Não é à toa que minha avó dizia que os cachorros são de Deus e os gatos são do demônio: quando um cachorro entra na igreja ele fica quietinho, nem fica miando nem nada.
- Ele está louvando!
Olhei para o Raphael, não acreditava que ele tinha dito aquilo.
- Como assim “louvando”? Ele é um gato!
- Gatos também louvam, mas louvam em miandês.
Miandês, segundo o Rapha, é a língua que os gatos aprendem quando ainda estão na Gatolândia e é o código secreto para sair de lá e vir pra Terra.
O gato miava, o padre falava e eu me sentia muito mal, porque parecia que o gato falava: “mamãe, mamãe!”. Ele olhava pra mim com aquele olhar do Gato de Botas amigo do Shrek e miava “mamãe, mamãe!”.
A coisa piorou quando ele começou a se esfregar nas minhas pernas e deixou minha calça preta quase tão branca quanto ele. - Socorro, ele acha que sou a mãe dele!
O Rapha riu. Sei que parece besteira, mas o gato não saía de perto de mim, eu estava ficando mal com tudo aquilo.
- Liga, não. Isso aí é ritual de acasalamento!
Aí foi o fim. Como assim um gato entra na igreja, pega o primeiro ser que encontra e vai se esfregando num ritual de acasalamento, ainda por cima dizendo “mamãe, mamãe!”? Aonde viemos parar!
Catei aquele ser, que de tão pequeno parecia que ia se quebrar em dois e olhei para suas partes íntimas. Os gatos deixam essas coisas bem escondidinhas, mas deu para ver que era gato e não gata.
- Sai pra lá seu gato viado!
Deixei escapar em vol alta. Nada contra, mas é que ele me tava me irritando.
As pessoas do banco da frente ouviram e olharam para mim. Acharam que tava falando pra alguém, talvez para o padre. Eu não olhei para elas porque tentava fazer o Rapha parar de rir do meu lado.
- Deixa eu resolver isso.
Ele levou o gato safado pra fora da capela e quando voltou, todo feliz, me disse:
- Chutei ele uns dez metros e acredita que ainda caiu em pé?
Menos mal. Pelo menos lá fora ele deve ter achado alguém da espécie dele para viver feliz para sempre, ou pelo menos até o dia em que aprenderão a língua dos humanos que, segundo o Raphael, é o código para saírem deste mundo e voltarem para a Gatolândia.Essa semana sonhei com o gato e fiquei imaginando se ele tinha encontrado a mãe dele... Espero que sim.

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