Leonardo, a Ciência e a definição de "Elemento"
Ao Leonardo.
Ao professor Tiago.
À criança de cada um de todos!
O Léo: a criança, curiosa. 9 anos.
Eu tenho a maior facilidade em lembrar-me dele e abrir o sorriso: sorriso, meu, de criança, que dá risada porque acha gozado sim o jeitinho perspicaz, especulador e de sondagem do pequeno — olhar de detetive, matreiro, que maquina pensamentos e esquemas, escondidamente, atrás dos óculos — e que com ele se identifica.
Mas, sobretudo, que dá risada porque, recuperando Nietzsche, “descobre o prazer da descoberta da verdade.” Descubro minhas verdades com o Léo.
Leonardo é esta criança verdadeira, repleta de energia que não se contem e que não desiste nunca em suas investigações sobre a ordem das coisas: está sempre perguntando!
Lembro-me, com Léo, a verdade da minha pequenez diante do maravilhoso mundo novo que está assim, diante destes iniciantes no mundo das coisas já iniciadas.
Como sou pequena Léo, como são infinitas e sem limites as perguntas de vocês...
Que bom ser assim!
Pois assim se deu: o dia era de avaliação em Ciências. Havíamos visitado o mundo da terra, experimentando um pouco das sensações e das transformações que aí podemos acompanhar, causar, provocar.
Pondo a mão na terra, provocando reações nela e refletindo sobre estas terras meio diferentes que encontramos em várias partes do chão da gente e, sobre, enfim, o que é que a gente tem com isso, estávamos concluindo estes estudos na atividade de avaliação — mais uma oportunidade, como procuro reconhecer com as crianças, de continuarmos aprendendo e de mostrarmos, enfim, o que sabemos, como sabemos. Não de forma absoluta, nestes termos, pois “há muito mais coisas que ocorrem entre nós e um papel em um momento de avaliação, do que discursam nossas filosofias bem intencionadas...”
Pois bem: em uma das questões, propunha que as crianças brincassem um pouco com o registro dos elementos do solo, criando um “mini-álbum de figurinhas” a partir do título muito claro, em proposta fechada - supunha eu - assim colocado em letras grandes: “OS ELEMENTOS DO SOLO”.
Momento de atividade concentrada, crianças trabalhando de forma independente e, eu sentia, de forma motivada com seus trabalhos. O clima era de aprendizado. Havia confiança e sentimento de poder, de tentativa no ar. Momento especial de autonomia para os pequenos — primeiras avaliações formais na escola, na 3ª série!
Léo levanta a mão.
“Sim, Léo, diga”.
“Mas eu não entendi isso aqui!”, disse, muito sério e direto, como é, olhando para o papel.
“O que você não entendeu, Léo?”
Mostrou-me a questão do álbum de figurinhas.
“Isso aqui!”, continuou, com tom de: “Oras bolas, você não vê o que eu vejo?”
(Realmente, infelizmente, não, Léo... coisa de gente que quase fica adulta! Vocês vêem muito mais coisas que a gente!)
“Mas, Léo, o que está sendo pedido? Veja só: crie um álbum de figurinhas com o tema ‘OS ELEMENTOS DO SOLO’. Você sabe isso, não sabe? Qual a sua dúvida?”
Eu, caminhando no mundo das coisas "visíveis" e acabadas. Léo, não.
Eu sabia que o Léo, que havia procurado as minhocas da nossa horta, com entusiasmo inigualável, Léo criador de supreendentes esquemas ilustrativos sobre a formação do solo, sabia sim muita coisa sobre os tais “elementos”.
Mas foi aí que o Léo “me recuperou”, fazendo-me ver o que eu não sabia - o que ele queria dizer. Léo me pôs no caminho da revolução.
Criança, perguntou e fez o primado da ciência renascer lá naquele tempo-espaço do nosso pedaço:
”Mas como assim? O QUE É UM ELEMENTO?”
Todos olharam para mim. Olhei a Léo com admiração. Eu sorri; na verdade, gargalhei. Todos riram comigo. Mas eu me expliquei, me justifiquei:
“Pois é Léo, o que é um elemento? Eu é que te pergunto! O que é que é um elemento! Nem me diga, Léo! Tá aí uma pergunta de verdade...”
Pedi que as crianças anotassem esta pergunta em suas avaliações, registrando o momento de reflexão de Léo. Léo que, no dia anterior àquele, havia também perguntado: “MAS O QUE É REFLEXÃO?”
Como a gente coloca nomes às coisas, Leonardo... categoriza, torna impalpável: cria o jargão. Quase que a gente se esquece de onde tudo isso veio: da vida, da minhoca, do movimento, da ação de cada um... Como se palavras significassem saber (o que é um problema!)... Como (outro problema!) se as palavras não pudessem ou não devessem ser pensadas... Quase que a gente se esquece de onde é que elas vêm, por que é que elas vêem, como é que vêem e ainda: que elas podem continuar vindo, na construção do conhecimento de cada um!
Quase!
Porque, enquanto houver a criança que pergunta, criança de cada um de nós, que pergunta o crucial e, assim, vai pondo contra a parede nossas formas no mínimo questionáveis e provisórias de lidar com o conhecimento de mundo, a ciência triunfará: festa dela, alegria dos astronautas, engenheiros, físicos e meteorologistas da face da Terra!
Essa gente como a gente, contente, brincante da vida, apaixonada por alguns pedaços em especial da realidade, que descobriu o barato de perguntar, inventar, imaginar: sem medo de apontar, às vezes, em tom de brincadeira ou de gravidade: “Ôhu, mas você não tá vendo? Veja! Olha só! Pára de fazer igual, pergunta o não perguntado, vem; brinca com o dado, inventa o animado! Faz a travessia, olha a estrela, desenha, redescobre o encantamento pelo mundo!”
Na sua pergunta, a Ciência triunfou, Léo. Escolho este movimento para significar o que eu, Tia Ju, entendo a respeito das coisas que a gente deve alimentar em vocês.
O que é um elemento Léo? Tá aí: vamos pensar, pesquisar, pensar juntos e tentar uma hipótese.
Eu acho que elemento é “algo” (meio impreciso de minha parte!) que faz parte, o que está lá: você é um elemento único da 3ª série. O hambúrguer, um elemento do Mac Donalds, como explicou a você naquele momento o Víctor. E assim por diante.
Todavia, “elemento” pode ser muito mais que isso.
E daí, eu deixo para você continuar pensando e descobrindo, na sua travessia pelo pensamento da indagação filosófica, os caminhos que vão levá-lo a achar a Química e a Física. Caminhos que farão a Física e a Química acharem a você.